Uma história de drogas e repressão

Por: Wood Rafa

A humanidade vem utilizando meios de escapar da realidade brutal desde tempos imemoriais. Desde as casas de ópio da China imperial às ervas alucinógenas dos nativos da América pré-colombiana existe um padrão humano de usar de substâncias que alteram a percepção do mundo para fins religiosos ou contemplativos. No último século as drogas se tornaram um tabu. Não pelos danos a saúde, mas porque o estado burguês, na sua busca implacável pelo controle absoluto da sociedade, as tornaram um vetor da eugenia social que as elites promovem em seus ciclos no poder.

Logo abaixo destes vem a elite politica, clerical e intelectual que, por verem a si mesmos como guardiões do curso moral da humanidade, condenam tudo que está fora de seus dogmas e projetos de poder. Não obstante, os membros dessas mesmas elites muitas vezes abusam das substâncias que afirmam pretender eliminar. Ao olharmos isso em perspectiva podemos observar que a guerra nunca foi contra as drogas, e sim contra seus usuários que se tornaram obstáculos da roda do poder. Podemos tomar como exemplo a proibição da maconha nos EUA nos anos 30, onde o termo marijuana foi deliberadamente emplacado para não só difamar a planta, mas associá-la aos mexicanos como instrumento de disseminação do preconceito às populações latinas que perduram até hoje no governo Trump.

No Brasil essa guerra às drogas foi inicialmente importada como parte da influência imperialista estadunidense sobre as ditaduras latino-americanas da segunda metade do século XX, onde notoriamente as drogas, especialmente a maconha, foram associadas aos opositores dos regimes e populações indesejadas por aqueles que detinham o monopólio legal da força.

Nos anos 70, os porões da ditadura associados à histórica marginalização do povo preto no Rio de Janeiro levaram à criação do Comando Vermelho por Rogério Lemgruber, o Bagulhão, e outras pessoas marginalizadas pela pobreza ou pelo posicionamento político nos anos de chumbo, cujos saudosistas atuais tanto querem de volta. Vinte anos a frente e depois do esfacelamento do poder estatal no Rio de Janeiro e em São Paulo, estados detentores das maiores favelas da América, surge o que talvez seja o poder paralelo mais letal aos interesses do estado, o PCC.

Com a ascensão do crime organizado sem raízes políticas a burguesia fica em alerta para uma potencial revolução, em São Paulo em 2006 o “Salve Geral” fez com que todos os políticos em seus palacetes sujassem suas fraldas de seda e linho enquanto arrancavam os cabelos pensando num modo de se salvar sem pedir ajuda ao socialista que ocupava o cargo mais alto do poder federal. O Rio de Janeiro numa espiral destrutiva rumo à derrocada do tráfico e a ascensão das milícias. Dalí surgiram as vozes que querem a nossa morte.

O medo de perder o poder fez com que os políticos da nova direita brasileira fomentassem o plano anti-povo que está sendo colocado em prática enquanto você lê esse texto. Toda a vez que um pastor, um âncora de jornal da tarde ou um político defensor da moralidade judaico-cristã aponta o dedo para a câmera condenando as drogas e rogando pragas aos seus usuários, na realidade ele está apontando para o favelado, para o negro, para quem está ocupando o terreno cobiçado pela especulação imobiliária financiadora das campanhas desses acusadores.

O fracasso da política pró-povo não foi a eleição de um presidente abertamente preconceituoso e de todo um séquito de personalidades abomináveis junto com ele, não, o fracasso foi eles terem sido eleitos por um povo que sem saber está clamando pela decapitação de si mesmo.