Um bate papo sobre resistência: Wlad Cruz – do lendário site Zona Punk- e o “ faça você mesmo” como estilo de vida.

Por: Alam Moura e Edu Ramos

Uma ideia, vontade, acreditar, e o principal, ter alguém que seja apaixonado por Rock. Talvez essa seja a receita de um dos sites referência no que diz respeito a bandas independentes, o Zona Punk, que em 2019 comemora 20 anos, tem a frente o jornalista Wlad Cruz, alguém que facilmente se confunde com a noite, por conta de seus inúmeros eventos e coberturas de shows, se tornando uma figura quase onipresente na cena alternativa. O Proseador bateu um papo com ele que falou sobre música, a cena independente entre outros assuntos.

O.P: Como o Zona Punk trabalha para “fugir” do eixo Sul/Sudeste, onde tem muitas bandas, e para não cair na tentação do “caça-cliques” ou no vício de só falar das grandes bandas?

Wlad Cruz: Principalmente não se importar. A gente nunca teve aquela ideia de ficar fazendo matéria para caçar clique ou chamar a atenção, a gente sempre fugiu de polêmica, polêmicas pessoais, o que importa é música e eu acredito que música é global cara; então a mesma atenção que eu dou para o e-mail da assessoria que está trazendo o Lollapalooza, eu dou para um moleque de uma banda fora do eixo, todos são importantes e todos tem o mesmo tamanho pra gente.

O.P: Em relação a cena independente: você acredita que ela pode ser autossustentável no Brasil?

Wlad Cruz :Ela é, a cena é autossustentável. A prova viva você vê em bandas como o Dead Fish, que vive disso, o Garage Fuzz…basicamente tem um monte de bandas que conseguem. Tem o Pense que é uma banda que está em evidência e está vivendo disso, o lance é trabalhar. É obvio que é arte, é diversão, é rock, mas não deixa de ser um trabalho; e quem trabalha duro chega. É obvio que não é fácil e nem todos que deveriam chegam lá, mas com trabalho duro você consegue. O Zona Punk mesmo é uma prova que é possível você viver de Rock, inclusive não tocando, até porque rock não é só tocar, a atitude do rock, do punk, não está só nos três acordes. Um moleque que faz uma Startup é tão punk, ou mais, quanto uma banda e, se ele vive disso, ele é um vencedor. Ele vive de forma independente.

O.P:Como é a logística do site Zona Punk? Você tem correspondentes em vários lugares do Brasil e até do mundo, cobrindo shows lá fora entre outras atividades. Quem são essas pessoas e o que você fez para construir essa identidade do Zona Punk, ter uma galera que esta envolvida e trabalhando com você?

Wlad Cruz: Cara, eles chegaram a mim, a maioria. Tem muita gente fazendo coisa boa por ai, o que falta é visibilidade, distribuição, e o Zona Punk não é um portal ou um Blog, ele é um Fanzine, ele tem Punk no nome porque é um fanzine online. Há vinte anos a gente faz um fanzine em formato digital e eu aprendi que fanzine é colaborativo, as pessoas podem vim e escrever. É claro que eu não vou colocar ali coisas que vão contra a linha editorial do site, não vou por algo que seja contra o que eu acredito, mas obviamente ele é colaborativo e eu quero que as pessoas se envolvam. Por exemplo, o Mauricio em Barcelona: ele é um cara que tira foto de show de Hardcore, Punk, porque ele curte e ele é correspondente de outras revistas, outros lugares, mas ele queria também ter um vínculo com o Hardcore/Punk, ai ele manda para nós. Hoje em dia a gente não tem ninguém que seja remunerado ou assalariado, inclusive eu, todo mundo faz isso por amor. 

O.P: O Zona Punk começou em 1999 e o Brasil era outro país economicamente e politicamente. Como você enxerga as bandas e seu posicionamento, tanto nas letras quanto no engajamento, daquele período até os dias atuais?

Wlad Cruz: Sem dúvida o mundo mudou e está mudando, eu acredito que para melhor. É uma evolução, por mais que tenhamos momentos difíceis. Mas o discurso muda, coisas que eu falava e pensava em 99, em 2009, talvez eu não fale ou pense a mesma coisa em 2019, porque eu evolui, e o discurso das bandas é a mesma coisa. É claro que a gente tem bandas que em 99 já tinham um discurso politizado bem interessante, que não necessariamente você precisa concordar, mas ele é bem colocado: seja de uma forma mais rebuscada, como fazia o Dead Fish, de uma forma mais direta (tosca) como o Mukeka di Rato, ou mais poética como Dance of Days fazia. Mas todo mundo já tinha um discurso. Hoje em dia eu acho que isso ainda existe, mas hoje ainda se faz mais urgente e talvez a gente comece a entender. É  um caminho que é importante. Você vê bandas de destaque hoje, como o Pense, por exemplo, que tem letras positivas e afirmativas e que talvez uma banda com o destaque deles naquela época não se preocupasse tanto. Hoje você tem um show do Dead Fish onde o Rodrigo se posiciona politicamente de forma clara, e repito, não precisa concordar. Talvez muito provavelmente eu não concorde com muitas das coisas que o Dead Fish fala, mas ele se coloca e é importante. As pessoas tem que se posicionar, porque quem se omite está sempre apoiando o opressor.

O.P: Muita gente acompanha você além do site do Zona Punk, seja no seu perfil pessoal nas redes sociais ou na noite, e você é um cara que articula muito bem suas ideias. Como você define na sua visão pessoal o momento atual do Brasil em termos gerais, a parte da música, seja na política, na sociedade?

Wlad Cruz: Cara, para qualquer pessoa que lida hoje com cultura e não está atrelada a nada, ou seja, quem é independente, está muito difícil. Mas também está muito difícil para um monte de gente…eu acho que não adianta a gente reclamar, é ir pra frente. O país está em um momento complicado e quando a ignorância vence não tem mais argumentos. Eu acho que falta leitura, falta cultura, também falta interesse. A gente vive uma época muito triste pela falta de informação, pela falta de empatia. É um tempo complicado, mas eu não quero ver o lado ruim. E quero que se foda o Bolsonaro, eu quero que se foda a esquerda, a direita, nenhum deles vai nos ajudar, a gente tem que se ajudar, nós somos indivíduos e nós temos que ter empatia e amor pelo próximo, querer evoluir e fazer o melhor. Nunca vou esperar  nada do superior, morte ao rei sempre. Se a gente não estiver junto ninguém vai estar pela gente. Que todo mundo ajude o outro sempre.

O.P: Qual a expectativa que você tem de todo o trabalho desenvolvido pelo Zona Punk e, após todos esses anos, qual o legado que você gostaria de deixar para as pessoas que acompanham o seu trabalho?

Wlad Cruz :Cara, principalmente com o audiovisual, eu descobri que a coisa mais legal do mundo é  você tocar as pessoas, falar para alguém, tocar o coração dela, emocionar, isso não tem preço. As bandas conseguem isso através da música, quando as pessoas cantam juntas e sentem aquilo, cara, isso é a coisa mais especial do mundo, você tocar a pessoa. Com o audiovisual eu consegui de alguma forma e com o Zona Punk também. Não é atoa que algumas pessoas já tatuaram o logo do site, porque mudou a vida delas. Eu quero ir embora daqui e saber que deixei para algumas pessoas algo importante. Até onde eu saiba a gente só vive uma vez, ninguém é perfeito, a gente erra (eu errei pra caralho), mas sempre é tempo de você melhorar, sempre é tempo de você fazer certo, sempre é tempo de você tocar as pessoas de uma forma boa, mesmo que você tenha feito mal pra elas em algum momento. Dá tempo de correr atrás, como diria nossos amigos Beatles “and in the and the love you take is equal to the love you make”. Então é isso, faça amor às pessoas para você receber igual.