Trocou a toga pelo fogo: A batalha de Carlos Beutel pela preservação do centro de SP e contra as obras no Vale do Anhangabaú

Carlos Beutel é um sonhador. Formado em Direito pela USP, há 35 anos trocou a toga pelo fogo. Fogo do Restaurante Vegetariano Apfel, do qual é dono, fogo das várias batalhas em que se envolveu pela preservação do Centro de São Paulo.

Por: Alam Moura

O Proseador conversou com Carlinhos no Copan, edifício emblemático de São Paulo que embala os sonhos e pesadelos desse batalhador por uma sociedade mais justa.

Em uma manhã fria no centro de São Paulo, encontramos com um homem simples, em frente ao edifício Copam. Embora já estivesse agendado previamente, o encontro ocorreu justamente em uma sexta-feira de paralisação dos motoristas de ônibus. Coincidência, em um dia de greve na cidade estar ao lado de um dos mais atuantes e ativos cidadãos, que tem como bandeira a qualidade de vida e o bem estar dos moradores do centro.

Simpático, nos convida para tomar um café, seu humor e tranquilidade, refletem a imagem de alguém que sabe que sempre esteve no caminho certo, afinal, lá se vão trinta anos desde quando começou o trabalho de recuperação junto com a Associação do Centro, “esse foi um trabalho lento, e ninguém acreditava que a gente pudesse recuperar. Ele ainda não está do jeito que a gente quer porque as duas últimas gestões foram muito ruins e não entenderam. Esse mesmo que está aí (Atual Prefeito Bruno Covas) fala do centro, mas ele não entendeu a essência, ele está fazendo muito “eventinho”, ele acha que festa resolve tudo, e na verdade tem coisas de fundo que tem que ser feitas, coisas simples, zeladoria é o mais básico de tudo e o mais barato”

Nascido no bairro do Bom Retiro, Carlos lembra com carinho de suas primeiras imagens do centro ainda garoto, quando vinha passear com os amigos, “o centro na minha memória até os vinte anos, era um centro tranquilo, bonito, onde você podia andar”.

“Eu só voltei pra cá aos trinta anos e me surpreendi, eu não acreditava que o centro estava tão caidaço, quando eu voltei no comecinho dos anos 90, era um absurdo, estava cheio de camelôs, assaltos a dar com pau, levei um choque. E outra coisa, a corrupção na admiração pública era uma coisa impressionante. O faxineiro da subprefeitura vinha pegar caixinha de camelô, Polícia Militar recebia caixinha no bolso dos ladrões, eram quadrilhas com oito ladrões, era uma coisa terrível, uma degeneração completa. Foi aí que eu descobri que tinha um pessoal que se reunia para discutir as questões do Centro, era o tal do Conseg Centro naquela época, e eu comecei a participar. E caiu a ficha que a gente estava diante de uma realidade que seria muito difícil de mudar, pra falar a verdade eu nem acreditava que a gente mudasse, eu lutei porque era meu dever de cidadão.”

Quando perguntado sobre quais são os principais problemas na cidade de São Paulo nos dias atuais, Carlos é enfático ao apontar a corrupção e a ineficiência, problemas que afligem não só a cidade mais rica do país, mas as gestões públicas em todo território Brasileiro; “a ineficiência na questão da zeladoria urbana, na questão de consertar as calçadas, do lixo em seus vários aspectos, incluindo a coleta seletiva, a oportunidade que a gente pode dar às pessoas em situação de rua através das cooperativas, o tratamento delas no uso de drogas e das questões psiquiátricas, pois andam juntas. A corrupção entra em tudo, na zeladoria, por exemplo, quando uma pedra que custa doze reais no mercado é vendida por cem, quando eles falam que vão trocar as pedras portuguesas porque estão ultrapassadas, isso é mentira, se você não faz zeladoria e manutenção adequada qualquer piso não se mantêm.”

Carlos Beutel -Imagem: Alam Moura

Um assunto delicado e que ainda gera muito debate quando falamos do Centro de São Paulo são os grandes eventos, e todo o transtorno que muitos deles geram para os moradores da região, porém, diferente do que muitos possam pensar Carlos não é contra nenhum deles, ele cobra algumas regras tanto por parte do poder público quanto dos organizadores, mas sempre zelando pelo espaço democrático com consciência e responsabilidade.

“O centro é um espaço da democracia, é um espaço de convivência, o centro é o espaço ideal, mas logicamente nós temos que respeitar a comunidade que mora no centro, então no carnaval nós temos regras de ajustamento de condutas firmadas com o Ministério Público e a comunidade reclama com procedência. Nós não queremos acabar com o carnaval, queremos algumas regras, os blocos não podem ficar parados, como aconteceu aqui na Avenida São Luiz, ficou parado, 5/6 horas, aquele puta caminhão com 250 decibéis, é isso que incomoda. O centro é esse espaço, a gente tem que aceitar os eventos, mas tem que ter alguns limites”.

Além da sua luta por uma cidade melhor, muitas pessoas conhecem Carlos Beutel por outras atividades que ele organiza, entre elas a já conhecida Caminhadas Noturnas, em 14 anos de atividade o projeto que, segundo Carlos, era para quem morasse no centro ou fosse de São Paulo pudesse conhecer mais profundamente, tomou proporções que ele nunca imaginou,

“Logico que quando eu comecei há 14 anos o centro era muito mais perigoso. Hoje tem muito usuário de droga e ainda é perigoso? Sim, mas é muito menos daquilo que a imprensa fala. Quem mora em São Paulo não imagina o quão bonito é o centro, não deve nada para Roma, para Paris, Nova Iorque, do seu jeito, São Paulo é linda. Quando os arquitetos Italianos vêm para cá, eles ficam em orgasmo, porque o nosso centro não é imitação de nada, é uma criação aleatória, mas muito bonita. E a caminhada tem esse dom, vem turista estrangeiro, turista nacional, mas o que me encanta é que o Paulistano quando vem na caminhada ele fala “O meu centro é lindo”, ele sai com essa boa impressão. O mais importante de tudo, São Paulo tem vários atributos é uma das cidades mais importantes para a moda, para feira e eventos, é uma cidade de grande produção intelectual, é uma das melhores noites, mas tem uma coisa que ninguém tira de nós, o povo da cidade de São Paulo dentre as grandes metrópoles é um dos mais simpáticos do planeta.”.

Nos últimos anos Carlos vem enfrentando uma batalha difícil que é a luta contra o projeto do Vale do Anhangabaú, se opondo à obra desde 2013, ainda na gestão Fernando Haddad, a retomada do projeto confirmada pelo atual Prefeito Bruno covas fez com que Carlos não desistisse, mantendo sua oposição firme ao projeto. “eu venho me opondo a essa obra há muitos anos, quando tiraram cinco milhões de reais da operação Urbana Centro, só tinha catorze milhões de reais para mandar para Curitiba para fazer um projeto de arquitetura, que até hoje ninguém viu. Até hoje eu tenho dúvidas se os Prefeitos tomam conta da cidade ou se são forças ocultas.”

“Em 2014 pegaram esse dinheiro, e em 2015 tentaram empurrar o projeto, mas eu consegui duas audiências públicas na Câmara Municipal, através do Vereador Gilberto Natalini, a quem eu agradeço e sou muito solidário a sua luta contra a ocupação dos mananciais, bom Vereador. Por conta disso nós conseguimos mobilizar a comunidade, alguns arquitetos, um deles inclusive havia participado do plano do Jorge Wilheim dos anos 80, que era perfeito, sua execução foi majestosa, as pedras estavam magníficas. E foram nessas duas audiências públicas que o projeto foi rejeitado, inclusive o Vereador Natalini entrou na Justiça, pois até hoje ninguém viu o projeto executivo, acredite se quiser.”

Carlos Beutel – Foto: Alam Moura

Carlos ainda afirma que Bruno Covas, ainda como vice Prefeito, havia lhe garantido pessoalmente diante de testemunhas que durante sua gestão a obra não passaria em hipótese alguma.  

“Para minha surpresa, assim que ele assumiu a prefeitura, um pouco antes da Virada Cultural, eu fiquei sabendo que iriam começar a tapumar o Anhangabaú para começar a obra, eu corri e preparei uma representação ao Ministério Público, mas eles quebraram rapidamente, pois sabiam que iria ter oposição. Eu só não imaginava que a oposição teria que vir de mim, quando nós temos inúmeros arquitetos brilhantes, nem eles, nem vereadores, ninguém se manifestou. Eu cheguei a organizar uma manifestação, com algum apoio, fui para a imprensa, entrei com ação no ministério público, ate hoje sem resposta. Mas o Preserva São Paulo através do Eduardo Rubies entrou com uma ação na 16ª Vara, onde ele me levou para convencer a juíza, quando ela deu uma liminar muito bem fundamentada aproximadamente uma semana depois. O nosso argumento básico era que não houve aprovação popular.”

Sempre defensor de um diálogo aberto com a população, a falta dele no Projeto do Anhangabaú é uma das questões mais graves na visão de Carlos Beutel, além  de ser uma obra desnecessária  diante de outras prioridades que a cidade de São Paulo carece;

“Oitiva Popular, nós temos que aprender a ouvir as pessoas, não é agradável você ser contrariado, mas faz parte da vida democrática. Em segundo lugar, o projeto está orçado e 80 milhões, você sabe como está a situação do SUS, é digno uma pessoa ir ao SUS e não ter uma injeção, uma anestesia, um esparadrapo para curar um ferimento? Esse é o orçamento, com o aditamento e tudo mais, isso vai para 150 milhões. Nós temos dinheiro, mas nós não aplicamos bem, eu acho que ele deveria ser prefeito da Disneylândia, ele vai fazer um ponto com 850 chuveirinhos, sendo que nós não mantemos as nove fontes que nós temos no centro. Esses mesmos infelizes que estão fazendo o Anhangabaú, fizeram a rua Sete de Abril, aquilo é uma monstruosidade urbana, e eu já tive a oportunidade que questionar sobre, e eles não têm resposta, são todos caras de pau.”

“A questão não é se vai ficar bom ou não, a questão é saber quem vai pagar o sofrimento das pessoas.”