“Quebradinha” preserva a identidade da periferia e mostra sua beleza através de miniaturas

Com detalhes que só seria possível ser feito por quem conhece a quebrada o Projeto Quebradinha detalha o cotidiano da periferia na Zona Sul de São Paulo

Por: Gabriela Sousa e Alam Moura

Marcelino Melo, Nenê ou “Menino do Drone” como é conhecido, um morador da Zona Sul de São Paulo vem ganhando destaque nos últimos meses por conseguir retratar a periferia através das miniaturas que são realistas não só na sua aparência, mas em como consegue transmitir de maneira simples sua mensagem chamando a atenção não apenas de quem mora na quebrada, mas de todos que se identificam com a arte. Não por acaso foi indicado pela Bienal de São Paulo, levando a voz da quebrada para muito além das barreiras que dividem as diferenças sociais e suas desigualdades.

Produtor Audiovisual, Nenê também é fotógrafo aéreo e Educador, e foi exatamente essa e outras experiências, pessoas com quem aprendeu e influências, que fez com que resultasse no “Projeto Quebradinha, que foi ganhando forma ao longo do tempo;

“A ideia da “Quebradinha” não veio do nada, é uma coisa que foi surgindo e se transformando ao longo do tempo, de pouco tempo para falar a verdade, porque eu início a primeira casinha no final de novembro de 2019, e em janeiro eu já estou com a segunda casinha, que é uma casinha azul e foi quando eu fiz o Instagram, aí sim deu-se o nome “Quebradinha”. Desde lá vem se tornando algo muito conceituado, com muita calma e com muita cautela que eu acabo fazendo, por isso não existiu um momento de inspiração que fez com que eu pensasse em fazer uma série de miniaturas e de esculturas, a coisa foi se transformando e ganhando uma grande proporção e cada vez mais entrava em mim com uma coisa que eu deveria dedicar mais tempo aquilo”

No Projeto Quebradinha, cada detalhe importa no processo de construção das miniaturas, os materiais são os mais diversos e basicamente é reutilizado tudo o que é encontrado na rua, ou como o próprio Nenê diz, “com as coisas que “me acham pelas ruas”:

“O principal material que eu uso é a placa de MDF, que é achado com muita facilidade nos lixos, em restos de moveis e é um material fácil de se trabalhar, também uso papel machê com jornal, tampinha de garrafa que eu acho na rua, enfim, basicamente os materiais são coisas que eu acho. Geralmente quando eu acho alguma coisa eu já sei o que fazer com aquilo, mas tem algumas coisas genéricas que eu uso para várias coisas, aí eu não tenho tanta preocupação quando eu vou pegar, como por exemplo o arame[…] as anteninhas das casas, eu uso bastante clips de papel quando tem, e arame”.

Sobre a visão de como as pessoas veem a periferia, apesar da grande repercussão, Nenê afirma que a Quebradinha não tem a pretensão de fazer com que as pessoas mudem a maneira com que enxergam a favela ou muito menos romantiza-la, mas que toda a visibilidade política é consequência do que representa seu trabalho;

“A Quebradinha, ela é principalmente informação, mas isso também é uma coisa que surge depois, eu começo a fazer a Quebradinha com o intuito de entretenimento, é uma coisa bonita, não tem miniaturas de casas de favela, e se tem não é algo comum no cenário de miniaturas, de arte e designs você ter a favela representada. E é menos comum você ver a favela representada de uma forma verdadeira, e a Quebradinha é isso. Então eu costumo dizer que ela é entretenimento e história. E ela é atual, informação, consciência e educação por consequência, porque tudo que a gente faz na quebrada, todas as manifestações políticas e sociais, acaba tendo de certa forma, por consequência essa coisa de resinificar os olhares”.

O fato da periferia ainda ser estigmatizada e muitas vezes estereotipada faz com que o “Projeto Quebradinha” tenha uma maior relevância por conta do realismo em suas miniaturas e a preocupação em como mostrar a realidade da favela, e essa identificação com a realidade, com o cotidiano, faz com que a repercussão se estenda para outros lugares:

“Essa identificação acontece de uma forma muito natural e espontânea, até porque a Quebradinha tem essa coisa muito natural de mostrar como a vida é na realidade. Pessoas de periferia e pessoas que conhecem ou que ainda moram na quebrada sempre vem dar um salve, isso é bem comum e até natural. Porém também tem pessoas de outros lugares, a Quebradinha é uma miniatura, e modéstia parte, são miniaturas bem feitas, que tem proporção, que tem conceito, então mesmo pessoas que não conhecem a periferia e que não vivam na quebrada, mas que gostam de arte, acabam se identificando, pessoas do Design, pessoas da arquitetura se identificam e isso que vem me deixando muito feliz com os retornos que acabam surgindo, que não é em um nicho específico que a quebradinha acaba visualizada e comentada, são diversos nichos que formam um universo muito maior que só a periferia. De alguma forma a Quebradinha acaba furando a bolha, reúne diversas pessoas que tem inúmeros entendimentos.

Uma das grandes notícias para Nenê no ano de 2020 foi o reconhecimento da Bienal de São Paulo, em seu Instagram a Bienal não apenas postou fotos do seu trabalho, como indicou e fez uma crítica de encher os olhos, um orgulho para todos aqueles que se sentem representados através de seu trabalho;

“Pra mim é a realização de um sonho que eu nunca tive, que eu nunca tive sequer a ousadia de pensar na possibilidade, de planejar ser um artista para que um monte de revista e jornais falassem do meu trabalho, eu nunca pensei em algo do tipo. A Quebradinha é uma parada que eu faço muito com o meu coração, de fato, eu pego toda a bagagem de coisas que eu aprendi e venho aprendendo no Hip Hop, na literatura periférica, na fotografia periférica, na educação, na arte, enfim, nesse monte de coisas que eu bebo na fonte, tudo isso transforma minha vida em uma bagagem muito intensa de aprendizado, de escuta e aí eu despejo tudo isso na Quebradinha, é muito com o coração, com o sentimento e com o meu imaginário”.

“Em nenhum momento eu pensei na possibilidade de ser uma artista, mas ai me vem a Bienal de São Paulo, uma das maiores instituições de arte do país e te reconhece como artista, te manda um e-mail falando que te considera uma pessoa que vem fazendo arte moderna e ainda publica sobre o seu trabalho com o mesmo respeito que tem pelos artistas que ela já vem publicando há um tempo, artistas que tem uma bagagem imensa uma estrutura completamente diferente da minha, que estudou arte, e ai chega um moleque de vinte e seis anos fazendo um trampo que tem menos de um ano e colocam como artista, no mesmo patamar dos caras, eu nem sei muito o que pensar e o que dizer, é a realização de um sonho que eu nem tive tempo de sonhar.”

Sobre os próximos passos, é claro que depois de uma grande repercussão e reconhecimento é natural que se imagine novos planos, projetos e o que se projeta para o “Projeto Quebradinha”, mas Nenê não quer traçar metas, e quer continuar focando o projeto para as pessoas que se identificam, e mostrar a quebrada de um jeito único que ele conseguiu;

“Eu procuro não traçar metas para a Quebradinha, até porque ela não é isso, ela não é um produto que eu quero vender. A Quebradinha é uma manifestação artística, cultural, social e ideológica, em que eu Nenê, o “Menino do Drone” venho fazendo, é claro que as coisas que vão acontecendo ao entorno vão colocando a Quebradinha em outros lugares, mostrando para cada vez mais pessoas e faz com que a gente sonhe com mais coisas, mas nada que seja uma meta. A Quebradinha é para ter um alcance para as pessoas que se identificam e sintam-se feliz com isso, é muito legal ter o reconhecimento da Bienal, mas isso não faz com que eu deixe de ter os pés no chão, vamos continuar na mesma, fazendo o melhor possível”.

Segue abaixo alguns trabalhos do projeto Quebradinha.

Link do Instagram: Quebradinha