Projeto reúne depoimentos de 30 jovens negros do Complexo do Alemão em museu digital

Museu dos Meninos conta com relatos de jovens e homens entre 15 e 29 anos. Espaço foi pensado para ser uma preservação de memória.

Fonte: G1

Professor do Complexo do Alemão diz que tem sorte em estar vivo
Professor do Complexo do Alemão diz que tem sorte em estar vivo

Trinta jovens negros do Complexo do Alemão, na Zona Norte do Rio, deram depoimentos de como é o dia a dia dentro das comunidades e dividiram as vivências pessoais em um museu em formato digital. Criado para ser um espaço de preservação de memória, o projeto Museu dos Meninos busca compartilhar as histórias de moradores entre 15 e 29 anos.

Ao G1, o idealizar do projeto, Maurício Lima, de 29 anos, contou que a motivação veio da rotina violenta que ele vivenciou. Nascido e criado no Alemão, o ator descreveu o Museu dos Meninos como um projeto transdisciplinar, com perfomance e ações que englobam as artes visuais e audiovisual.

Projeto reúne relatos de trinta jovens do Complexo do Alemão, na Zona Norte do Rio — Foto: Divulgação/Museu dos Meninos
Projeto reúne relatos de trinta jovens do Complexo do Alemão, na Zona Norte do Rio — Foto: Divulgação/Museu dos Meninos

“O que me motivou a fazer essa obra foi o fato de eu ter nascido vendo jovens como eu serem assassinados pelo estado, pela violência policial no morro. As nossas histórias só ganham visibilidade quando nós somos assassinados, e aí são outras pessoas que contam as nossas histórias. Esse projeto surgiu para que seja cada vez mais difícil apagar a nossa história e para que a gente possa construir e escrever essas histórias e resistências enquanto elas são pulsações de vida”, declarou o ator.

Ator do Complexo do Alemão acredita que há um projeto de extermínio em comunidades
Ator do Complexo do Alemão acredita que há um projeto de extermínio em comunidades

Para o fundador do museu, o projeto se mistura com a própria vida dele e não há como descrever um marco inicial da ideia. Maurício destacou que cada experiência vivida foi uma espécie de tijolo na estrutura do projeto.

“Eu tenho entendido que essa obra nasceu junto comigo e ela foi ganhando forma com o passar dos anos. Ela nasce quando entendi quem eu sou e onde eu estou. Quando eu cresci no Complexo do Alemão, eu cresci vendo as pessoas sendo assassinadas pela violência do estado no morro e eu achava que isso era uma coisa normal, que a gente por ter nascido preto e por morar numa favela isso era uma coisa comum, uma ordem natural do mundo. O teatro me mostrou que a morte nessas condições na favela não é uma coisa normal”, contou o ator.

Em museu virtual, jovens do Complexo do Alemão contam sobre expectativas para o futuro  — Foto: Divulgação/Museu dos Meninos
Em museu virtual, jovens do Complexo do Alemão contam sobre expectativas para o futuro — Foto: Divulgação/Museu dos Meninos

Em vídeos divulgados no site do Museu dos Meninos, os 30 jovens são incentivados a pensar em futuro. A principal pergunta feita pelo fundador foi “O que é futuro pra você?”. Para conferir todas as visões de futuro, é necessário acessar o site. Todas as gravações foram realizadas no ano passado, antes da pandemia do novo coronavírus e, por isso, os entrevistados estão sem máscaras.

“São 30 olhares para o futuro partindo de uma mesma laje. Eu me sinto muito feliz de poder criar esse espaço coletivo, para que a gente junto consiga, mesmo nesse momento tão louco, pensar em criar expectativas de um futuro melhor, de um futuro que precisa ser diferente e que vai ser diferente”, destacou Maurício.

Imagem aérea do Complexo do Alemão — Foto: Marcos Serra Lima/G1
Imagem aérea do Complexo do Alemão — Foto: Marcos Serra Lima/G1

O Museu dos Meninos também conta com a participação de convidados nacionais e internacionais. De acordo com o projeto, até a publicação desta reportagem algumas das presenças confirmadas eram Djamila Ribeiro, Erica Malunguinho, Jessica Abreu, Joacina Katar, Edgar e Mitchell Esajas.

Gravações do Museu dos Meninos ocorreram em 2019, antes da pandemia do novo coronavírus  — Foto: Divulgação/Museu dos Meninos
Gravações do Museu dos Meninos ocorreram em 2019, antes da pandemia do novo coronavírus — Foto: Divulgação/Museu dos Meninos

Conheça alguns dos meninos

O ator, fotógrafo, estudante de licenciatura e editor de vídeos Diogo Nunes, de 28 anos, é um dos 30 participantes do Museu dos Meninos. Ele contou que mora no Complexo do Alemão desde quando nasceu, assim como a mãe.

Diogo Nunes, de 28 anos, vive no Complexo do Alemão, na Zona Norte do Rio, desde quando nasceu. — Foto: Reprodução/Museu dos Meninos

No relato, Diogo contou sobre a violência dentro da comunidade e a diferença das abordagens policiais em locais diferentes da cidade.

“A gente é atravessado o tempo todo [pela violência], tanto pela camada social quanto pelo estado. De uma maneira geral, a favela é vista como esse lugar onde tem uma permissibilidade, onde tudo é mais permitido por uma questão de violência mesmo, porque quando você vê as incursões policiais em condomínios de luxo, elas não são da mesma forma como são em favelas. As pessoas são vistas como pessoas, agora os moradores de favela são visto muitas das vezes como números”, afirmou o fotógrafo.

O estudante analisou a estrutura da comunidade como uma espécie de amontoado de sonhos.

“Se você materializa os seus sonhos, eles são como as casas nas favelas, eles vão se aglutinando, vão crescendo um em cima do outro. A favela é o futuro porque acaba que a gente está crescendo tanto, se solidificando tanto entre a gente que, daqui a pouco, a gente consegue meios de gerar um futuro pra gente”, diz o ator.

Diogo acredita que o projeto é um passo importante para a preservação de memórias. Ao G1, ele lembrou de pessoas que nem chegou a conhecer, mas que fizeram diferença para que ele estivesse onde está hoje.

“O Museu dos Meninos tem uma importância muito grande porque a gente começa a solidificar as histórias de quem passou ou quem passa pelas situações dentro da favela. A gente não consegue ter um registro físico de muitos nomes que já passaram, que ajudaram a construir e fazer com que nós, que somos favelados, tenhamos esse lugar de fala hoje em dia, que a gente consiga ver a nossa cultura como uma cultura. Esses nomes se perderam pelo passar do tempo, por a gente não ter uma organização, um arquivo, então o museu vem com esse intuito pra mim, de a gente conseguir ter uma memória”, ressaltou o fotógrafo.

Outro participante do projeto, o professor Eliel Januario de Morais, de 28 anos, abordou as pluralidades dentro de uma mesma comunidade. Ele morou até os 17 anos no Complexo do Alemão e atualmente vive em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense.

Eliel Januario de Morais, de 28 anos, viveu até os 17 anos no Complexo do Alemão, na Zona Norte do Rio — Foto: Reprodução/Museu dos Meninos

“No museu, eu falei sobre essa realidade que é estar vivendo sob perigo o tempo todo e de como a minha sobrevivência foi praticamente uma questão de sorte, porque uma bala perdida no meio de um confronto entre facções ou entre a polícia e alguma facção é uma questão simplesmente de azar, de má sorte. Era simplesmente uma questão de sorte eu estar vivo ou não, porque simplesmente naquele ambiente as pessoas não têm os mesmos direitos que outras partes da cidade. Isso é muito significativo, muito importante. Eu vi vizinhos que perderam a vida, eu vi pessoas da minha idade que perderam a vida, eu vi senhores que estavam simplesmente passando por uma via e receberam um tiro de bala perdida”, contou o professor.

Eliel ressaltou que, apesar de haver situações de violências, há muito para ser contado além de brutalidade e dos confrontos.

“Eu também tenho vivências legais para contar, assim como todos os meninos, porque nós somos indivíduos singulares, nós temos grandes experiências que a gente pode contar e que podem ser atraente para as pessoas, que podem ser bons relatos que rendam sorrisos, que rendem boas experiências para outras pessoas também”, afirmou o professor.

O Museu dos Meninos, para o docente, é o lugar para contar essas histórias.

“A importância do Museu dos Meninos para mim é realmente explorar esses indivíduos, com direitos com deveres, como pessoas que são iguais a todas as outras pessoas, de todas as outras regiões da cidade. Acho que é importante pensar essas pessoas. Será que se elas tivessem outros lugares elas teriam vivências melhores a contar? Será que se elas vivessem naquele mesmo lugar, mas o lugar não fosse constantemente estigmatizado, elas teriam experiências melhores? Acho que a gente precisa mostrar isso para o mundo, e o museu faz isso: mostra pro mundo esses seres humanos que têm direito a viver igual qualquer outra pessoa que mora em qualquer outro lugar”, completou o professor.

*Estagiária, sob a supervisão de João Ricardo Gonçalves