Para além da festividade, Iemanjá é símbolo da luta negra no país

Para escritora, Iemanjá não é branca: veio com os orixás a bordo dos navios que traziam os negros escravizados da África

Fonte: Bdf

A semana do dia 2 de fevereiro se tornou, no Brasil, momento de louvar Iemanjá, a padroeira dos pescadores e um dos orixás mais importantes da mitologia afro-brasileira. Associada aos oceanos, à fertilidade feminina e à maternidade, Iemanjá tem origem nos termos do idioma yorubá e significa “mãe cujos filhos são como peixes”.

Como manifestação popular, a festa de iemanjá é uma das mais populares e valorizadas no país. Na praia do Rio Vermelho, em Salvador (BA), a celebração chegou a receber 800 mil pessoas e se tornou patrimônio cultural da cidade.

Desde o raiar do dia, as primeiras oferendas a Iemanjá já são entregues por fiéis e apoiadores na beira da praia. Balaios carregados de flores, colares e espelhos também saem dos barcos dos pescadores.  

Por conta da pandemia, porém, a Prefeitura de Salvador proibiu aglomeração na praia do Rio Vermelho.

O mar como cemitério

Kiusam Oliveira, que escreve e conta histórias infantis sobre os orixás femininos, afirma que o mar, em sua visão afroreferenciada, é um território onde Iemanjá colheu os corpos negros que foram sequestrados e mortos no período do trafico negreiro.

“A gente olha e vê o mar como algo maravilhoso, incrivelmente gigante, majestoso, e até violento. Mas a gente não consegue ver o mar como um tumbeiro, como tumba, como um cemitério. E a gente não pode esquecer disso. Yemanjá e os orixás chegam ao Brasil exatamente a partir de 1600, quando o tráfico negreiro começou. O sequestro de negros e negras vindos do continente africano, a travessia do Atlântico até chegar ao Brasil. Os orixás chegaram ao Brasil através de negros e negras escravizados, sequestrados do continente africano”, aponta. 

Sincretismo religioso

O pesquisador Nelson Varón Cadena destaca que a data se consolidou em razão do sincretismo religioso que predominou nos primeiros anos da tradição.

“A data 2 de fevereiro é uma das duas datas mais importantes da igreja católica no mundo ocidental. É a data de purificação de Nossa Senhora, tanto que se celebra a Nossa Senhora da Purificação, a data da Nossa Senhora das Candeias, Nossa Senhora da Luz, Nossa Senhora da Piedade, Nossa Senhora do Rosário. Inicialmente, o culto a Iemanjá na Bahia era sincretizado com Nossa Senhora das Candeias. Existe, sim, o sincretismo. O 2 de fevereiro não é uma data aleatória”, considera. 

A Iemanjá preta

Para, Kiusam, porém, é preciso diferenciar a Iemanjá branca presente no sincretismo das religiões — e que dominga o imaginário popular —, da Iemanjá africana, uma orixá que é símbolo da luta do povo negro.

“A acessibilidade à festa de Iemanjá, ela está muito ligada a cor da pele branca, que é a ideia que brasileiros têm de Iemanjá. A Iemanjá negra, africana, que a gente reforça somos nós, a gente, nós que somos do Candomblé. E a gente sabe da origem histórica desta rainha. A origem histórica, o local de onde ela vem, jamais ela poderia não ser negra, assim como os orixás. Essa popularização desta festa do dia 2 de fevereiro é uma popularização que por um lado, culturalmente, a gente pode achar lindo, mas qual é a imagem de Iemanjá que os brancos se permite cultuar? É a africana? Eu não acredito”, esclarece a contadora de histórias.

Edição: Camila Maciel