Os homens cegos no hall de mármore

Por: Edu Ramos

O Brasil atual parece ter saído de um livro do Ignácio de Loyola Brandão escrito nos anos 70. Conheci o escritor há muitos anos e perguntei de onde vieram as ideias para a construção das imagens metafóricas e surreais (já que o contexto era claramente uma critica ao regime militar imposto no Brasil e à apatia da classe média) que ele apresenta em seu livro “Cadeiras Proibidas” (uma coletânea de textos publicada nos anos 70). Ele me respondeu, com aquela simplicidade típica dos gênios, algo que cabe perfeitamente hoje: A realidade era tão absurda, que não havia outra forma de retratá-la.

 

Atente-se ao redor, seja no transporte público, no ambiente de trabalho, em um almoço de família, e não será difícil encontrar quem defenda a tortura, justifique o estupro, menospreze a causa LGBT, os movimentos sociais, ONGs…Vivemos em tempos tão sombrios que há quem considere o vice de Jair, general Mourão, claro estrategista, um homem sensato. Damares, Vélez, Salles, Guedes, Bolsonaro e afins, representam o retrocesso intelectual e moral de um país que vive à sombra de um passado envolto por um densa névoa de obscurantismo, perpetuando a velha política elitista escancarada em reformas bisonhas, projetos de lei estapafúrdios e doutrinas ideológicas que nos remetem a idade média. A arma e o livro sobre a mesa dividiam pessoas enquanto pseudo sensatos formadores de opinião discutiam a importância da mesa. A caça às bruxas rolando solta e lideres fazendo oposição fantasiados de fogueira. Crimes calculados e lucrativos são cometidos a esmo em prol de megacorporações privadas e ainda se usa a desculpa divina do acaso, como se um suposto Deus estivesse de mau humor. E o povo compra tudo, engordando seu intelecto com argumentos de açúcar.

 

Loyola sempre será atual, pois nosso país é um eterno absurdo. Em um dos seus textos mais brilhantes, intitulado “O homem cuja orelha cresceu”, o escritor narra os dias na vida de um homem cuja orelha misteriosamente começa a ganhar proporções enormes. O desconforto pessoal atinge seu ápice quando a deformidade ganha contorno de problema social, de saúde e  de segurança pública, chegando ao ponto em que as autoridades não sabem como lidar com ele. Ao fim do texto, um garoto, em meio ao caos que se tornou a cidade, cheia de partes de orelha, favelados, irmandades religiosas, açougueiros, vendedores de churrasquinho e autoridades governamentais de diversas patentes, diz a um policial: “Por que o senhor não mata o dono da orelha?”.

 

Esse é o Brasil que eu temo.