O que aconteceu com aquela mulher ?

Por: Gabriela Sousa

Na última quarta-feira (27/01/21), por volta das 16h30, próximo ao metro Saúde, na Avenida Jabaquara, indo para casa, depois de um dia de trabalho, estava esperando o ônibus como de costume, até que olho para o lado e vejo uma cena muito perturbadora. Era um casal discutindo no meio da calçada próximo ao ponto de ônibus que eu estava e todos em volta olhando, pois ambos gritavam muito. Depois de uns 10 minutos de discussão o rapaz começou a ir para cima daquela mulher, sendo extremamente agressivo verbalmente, colocando o dedo no rosto dela, até que ele começou a fazer ameaças, dizendo que iria agredi-la quando chegassem em casa.

E no momento exato das ameaças, passou uma viatura da PM, e essa mulher começou a chamar desesperadamente, ela correu para o meio da rua, com vários carros vindo, correndo o risco de ser atropelada, pois é uma avenida de bastante movimento, e começou a gritar e acenar para os policiais que estavam vindo, para que a ajudassem. E o que os dois PM’s que estavam na viatura fizeram? Eles simplesmente olharam para a moça, aceleraram a viatura e passaram reto, como se nada estivesse acontecendo.

A mulher voltou para a calçada desolada, era nítido o desespero dela, e o rapaz abaixou o tom de voz depois que ela fez sinal para a viatura e ele percebeu que estava todos em volta olhando, mas mesmo assim, dava para escutar as agressões verbais que ele continuou fazendo. Até que um homem que estava no ponto de ônibus conversando comigo, vendo tudo o que estava acontecendo, viu o que os policiais fizeram e ele mesmo resolveu intervir, e a discussão “acabou”.

Depois de tudo, peguei o ônibus para casa, extremamente abalada, por ter presenciado o ocorrido e bastante pensativa, sobre o que iria acontecer, o que aconteceu com essa mulher depois? Quantas não têm a “sorte” que essa mulher teve de ter alguém para intervir naquele momento? E quantas outras também não estariam passando pela mesma situação?

Muitas vezes a mulher que é vitima de um relacionamento abusivo, vitima de agressões, tentam pedir ajuda, porém, muitas não são atendidas, como essa mulher não foi. E é por isso e outros N motivos que a cada 7 horas, o Brasil registra uma vítima de feminicídio e a cada 2 minutos uma mulher é agredida no Brasil.

E nesse momento que estamos vivendo, quantas e quantas mulheres são obrigadas a ficar com seus agressões em casa? Só na pandemia a violência contra a mulher aumentou 44,9%, se fosse 0,001 já seria muito, mas é 44,9%, vocês tem noção da quantidade de mulheres que são? E em muitos dos casos, outras pessoas sabem, e ninguém tenta intervir, porque fomos criados a acreditar nesse maldito ditado, “em relação entre homem e mulher, ninguém mete a colher”. Porém, nós temos que meter a colher, o garfo e a faca, sim. Se você conhece uma mulher, que está passando por essa situação, e você tem como intervir, tem que tentar sim, por mais difícil que seja. Pois as vezes, se você “mete a tal colher”, você pode salvar uma vida.

Muitas mulheres infelizmente vivem em um relacionamento abusivo e a maioria nem sabe, pois o relacionamento abusivo no começo é sutil, sempre começa pelo psicológico, afinal, se o relacionamento começar num tapa, é óbvio que a mulher não vai continuar. E estar em relacionamento abusivo, não necessariamente, significa apanhar. Muitas vezes, a violência, vem de outras formas, como a violência psicológica, verbal, sexual e até financeira. Essas formas, são muito mais sutis que a agressão física e, por este motivo, são mais difíceis de identificar.

“Até criar envolvimento e dependência emocional, é um príncipe. Quando ela está envolvida e fragilizada, aí sim ele vira um sapo”, diz a psicóloga e advogada especialista em violência contra a mulher Vanessa Paiva.

Vanessa listou os principais sinais de uma relação abusiva. Se algum deles está presente na sua relação, fique atenta e peça ajuda:. ligue para o 180, a Central de Atendimento à Mulher, que funciona todos os dias da semana, 24 horas por dia, ou procure uma Delegacia da Mulher.

Relacionamentos abusivos | psicoblog | G1

1. CIÚME EXCESSIVO

Com a justificava de “amar demais” o ciúme deixa de ser normal e vira justificativa para o controle. É normal que uma pessoa sinta medo de perder aquela que ama. Mas quando isso passa a virar argumento para controlar a tomada de decisão do outro, agressões, ofensas ou invasão de privacidade, é excessivo. 

Você sabe o que é e como acontece um namoro abusivo?

2. CONTROLE

“Porque eu te amo demais” ou “é para o seu bem” são frases comuns usadas pelo abusador para controlar a outra pessoa. O controle acontece quando ele começa a decidir o que a outra pessoa pode ou não fazer. Que roupas vestir, onde pode ir, quais atividades fazer e até, em casos mais extremos, que trabalhos a outra pessoa pode ou não ter.

3. INVASÃO DE PRIVACIDADE

Por mais que sejam parte de um casal, as pessoas devem ter privacidade e individualidade. Em um relacionamento abusivo, é comum que o abusador não respeite o espaço individual da outra parte. Roubar senhas, mexer no celular, ler e-mails e mensagens, instalar programas de rastreamento. Tudo isso é invasão de privacidade. Ela pode acontecer em segredo, sem que o outro saiba, ou ser aberta, com a justificativa de que “quem ama não tem nada a esconder”. Mas não permitir que o outro tenha um espaço só seu, na verdade, é demonstração de falta de confiança.

7 provas de que você vive um relacionamento abusivo

4. AFASTAMENTO DE OUTRAS PESSOAS

As justificativas podem ser muitas: fulano é má influência, ciclano dá em cima de você, não gosto daquela pessoa, aquela outra me trata mal. O fato é que ele vai exigindo que a companheira se afaste das pessoas mais próximas. A psicóloga Vanessa explica que “o objetivo é que você passe a depender somente dele”.

RELACIONAMENTO ABUSIVO - FÓRUM X

5. CHANTAGEM

A manipulação é uma ferramenta central no relacionamento abusivo. Se a parceira não aceita de forma pacífica do que é cobrada, o abusador costuma, então, usar de chantagem para conseguir o que quer. Seja dizendo que vai ficar doente ou vai se matar se a companheira não fizer algo, seja ameaçando terminar o relacionamento. A chave é saber o que mexe com a parceira e usar disso para manipulá-la.

Chantagem emocional: conheças as características

6. DESTRUIÇÃO DA AUTOESTIMA

Se no começo da relação a pessoa era incrível para a outra, aos poucos isso vai mudando. A mudança começam com “críticas construtivas”, que vão se tornando cada vez mais comuns e pesadas. Sem perceber, a vítima vai perdendo a autoestima até o ponto de achar que é alguém tão ruim que nenhuma outra pessoa vai amá-la se essa relação terminar.

Sintomas de Baixa autoestima: descubra fazendo apenas 3 perguntas.

7. INVALIDAÇÃO DE SENTIMENTOS

A parte abusadora da relação vai dizer que aquilo que o outro sente é besteira ou não é nada. “Toda vez que você invalida o sentimento, você condiciona a pessoa a não falar nada e a achar que o que sente é bobagem”, explica Vanessa. Assim, o medo, a dor e a tristeza de estar passando pelo abuso passam a ser enxergados como besteira pela própria vítima, fazendo com que ela permaneça no relacionamento abusivo, mesmo infeliz.

Conceito de pessoas e relacionamentos. casal afro-americano discutindo na  cozinha: homem de óculos gesticulando em raiva e desespero, gritando com  sua linda namorada infeliz que o está ignorando totalmente | Foto Grátis

8. FALTA DE DIÁLOGO SOBRE DINHEIRO

Não é fácil conversar sobre dinheiro. Mas a falta de diálogo abre espaço para que uma das partes da relação abuse financeiramente da outra. Por exemplo, se a mulher para de trabalhar para cuidar dos filhos, a dinâmica financeira da família precisa ser combinada antes. Assim, ela vai ter condições de sair da relação se precisar. No relacionamento abusivo, a falta de diálogo é usada para levar o outro à dependência econômica.

Das Opressões Financeiras em Relacionamentos Afetivos |  feminismosemdemagogiaOriginal

9. CONTROLE FINANCEIRO

É comum nas relações abusivas que uma das pessoas controle todo o dinheiro do casal e, por isso, passe a controlar também as atividades da outra. Quando uma tem que pedir dinheiro para tudo, passa a existir espaço para que a outra pessoa negue e, assim, decida o que a companheira pode ou não fazer.

Os prejuízos da dependência econômica para a mulher - Blog da Regina  Navarro Lins - UOL

10. USO DO DINHEIRO SEM ACORDO CONJUNTO

Dentro de um relacionamento, a forma como o dinheiro vai ser usado deveria ser decidida em acordo. Os recursos são dos dois? Quem decide quanto gastar ou quanto poupar? São questões respondidas em conjunto. No entanto, nas relações abusivas pode acontecer de uma das pessoas fazer compras ou investimentos com o dinheiro do casal sem consultar o outro. O resultado é que o  outro pode ficar sem recursos e nem saber. 

Traição financeira: mulheres falam sobre golpes que sofreram dos  companheiros - Revista Marie Claire | Notícias

11. PEGAR, ROUBAR OU DESTRUIR ITENS DO OUTRO

Quando a relação abusiva evolui, pode chegar ao ponto da pessoa esconder ou quebrar os pertences da outra como forma de controle. São comuns os casos em que o abusador esconde os documentos da outra pessoa ou quebra objetos pessoais durante  acessos de raiva.

O significado energético das coisas quebradas em casa, de acordo com o Feng  Shui

12. USAR OS FILHOS EM CHANTAGENS

Quando o casal tem filhos, as coisas ficam mais complicadas. No relacionamento abusivo, a pessoa usa os filhos como ferramenta de chantagem. Ao invés de se preocupar com o bem estar das crianças, é comum que o abusador as use como chantagem para conseguir o que quer.

Cerca de 80% dos filhos de pais separados sofrem com chantagens emocionais  dos genitores – Alagoas Brasil Noticias

13. EXIGIR RELAÇÃO SEXUAL

O estupro dentro de relacionamentos não é raro. Se o sexo é forçado, é estupro. E isso nem sempre acontece de forma explícita: não respeitar a vontade da outra pessoa, chantagear ou fazer ameaças para ter uma relação também são formas de abuso.

Por que tantas mulheres continuam em relacionamentos abusivos | Super

14. AMEAÇAS

Quando a relação abusiva já está avançada, ameaças se tornam comuns. Elas podem ser dos mais diferentes tipos: tirar o dinheiro, sumir com os filhos, agressões e até ameaças de morte. “A fala de que ‘cão que late não morde’ é muito perigosa. No caso das relações abusivas, em geral as ameaças são o principal indício de que a violência física vai chegar a acontecer. Elas são sinal de que o agressor está criando coragem”, explica Vanessa.

Relacionamento abusivo: 20 sinais de que você pode estar num relacionamento  abusivo e como superar

15. VIOLÊNCIA FÍSICA

Ela também é gradual. Começa com empurrões ou apertões e vai crescendo com o passar do tempo. Em casos extremos, a violência chega ao ponto do assassinato.

Relacionamento abusivo: quando homens e também mulheres passam dos limites  - ViDA & Ação

Por mais difícil que seja, não fique em um relacionamento abusivo, denuncie. Você pode e consegue, você não está sozinha.

” Se inviável é a correção, oportuno é o ponto final” – Rodrigo Quito

Abaixo, segue links nos quais você pode denunciar, e passo a passo de como denunciar:

Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180

Além do telefone, em quais canais é possível realizar denúncias?

App Direitos Humanos Brasil: https://www.gov.br/mdh/pt-br/apps

Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos: https://ouvidoria.mdh.gov.br/

Telegram: https://www.gov.br/mdh/pt-br/assuntos/noticias/2020-2/julho/violencia-contra-a-mulher-pode-ser-denunciada-pelo-telegram