O papel do feminismo no Brasil de 2019

Por:Hannah Ramos

Resgatando minha antiga coluna, publicada em novembro de 2018 intitulada de “O feminismo nos moldes do Brasil atual“, fiz um leve panorama da visão que a população brasileira tem sobre o movimento feminista e os perigos de um governo Bolsonaro para a massa feminina da sociedade. Passados três meses desse governo, acabamos por perceber que, na verdade, a situação é pior do que imaginávamos e que tende a piorar.

O que o governo de Jair Messias Bolsonaro ofereceu às mulheres especificamente, por enquanto?

Para começar, uma péssima representação: Damares Alves. Uma mulher que parece entender pouco ou quase nada dos reais problemas femininos do país, e que mesmo bem intencionada, comete erros grotescos. A ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, apesar de mulher, atrapalha grandemente os avanços da luta feminista no país. Mesmo que seja necessário haver empatia com ela, pois ela sofreu abusos sexuais, ela parece não saber como isso pode ser resolvido: seja sugerindo o “bolsa estupro” como uma das soluções, no qual o governo tentaria impedir a mulher de abortar dando um subsídio financeiro para que ela continuasse com a gravidez indesejada e fruto da maior violência que um ser humano pode sofrer e carregar pela vida, seja se posicionando a favor da educação sexual, mas contra a “erotização infantil”, pois “não acha adequado que uma criança de seis anos seja exposta a um pênis”, seja propondo uma sala rosa no Instituto Médico Legal destinada a vítimas de violência sexual (o que reforça a socialização de cores com base de gênero). Isso prova que, além de ela não saber onde se encontra o cerne do problema, ela não está preparada pra solucioná-lo, sendo que esse é o trabalho dela.

Além desses absurdos que violam severamente a liberdade feminina (e a própria concepção da violência sexual), Damares também faz parte da Frente Parlamentar em Defesa da Vida e Família, que combate a viabilização do aborto em casos de microcefalia e também estabelece que família é apenas a união entre homem e mulher. Apenas tolos acreditam que ter uma mulher entre os ministros de Bolsonaro é uma vitória; uma mulher reacionária, conservadora e antifeminista representa um verdadeiro perigo para o movimento feminista, porque não apenas ameaça as pautas deste como descredibiliza as participantes, reforçando estereótipos de que mulher feminista não é “direita”, “de família”, que são “vadias” e “mal amadas”, e que apenas mulheres como a ministra Damares conseguirão ser bem sucedidas.

Fora do assunto Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, a ameaça também é constante. Não só pelos depoimentos ridiculamente machistas, heteronormativos e de estereotipação de gênero que o governo de Bolsonaro (e o próprio) acabam por destilar, mas por diversos outros assuntos, sendo que usarei um como exemplo para mostrar que o perigo que correm as mulheres é constante mesmo quando parece não ser: a Reforma da Previdência proposta por Paulo Guedes é uma verdadeira violência à população feminina, pois não leva em consideração fatores importantíssimos da vida das mulheres brasileiras. A começar pelo fato de que as profissões em que mulheres predominam são menos valorizadas (como a educação), e que no geral mulheres ganham menos do que os homens (com análise já comentada na minha coluna que citei no começo do texto). Depois, a contribuição de, no mínimo, 40 anos para receber o valor integral da previdência e de idade mínima, no caso dos homens, de 65 anos e das mulheres, 62, não leva em conta um fator importantíssimo: a dupla (e às vezes tripla) jornada de trabalho feminina, que é responsabilizada não só por contribuir na renda da família mas também de cuidar da casa e dos filhos. Aqui, temos outra participação de Damares. Como a dificuldade de se aposentar para as mulheres aumenta, as mulheres se retiram do mercado de trabalho, o que aproxima a realidade do país com o “modelo de sociedade ideal” da ministra: a mulher viveria apenas em casa, sendo sustentada pelo marido.

Também vale lembrar que, no Dia Internacional da Mulher, o presidente Jair Bolsonaro disse que havia “equilíbrio” entre homens e mulheres a cargo dos ministérios: por mais que dentre os 22 ministros apenas duas sejam mulheres, Bolsonaro disse que cada uma equivale por dez, e que “pela primeira vez na vida o número de ministros e ministras está equilibrado em nosso governo”. As duas ministras são a já citada Damares e a deputada Tereza Cristina, encarregada do Ministério da Agricultura. Vale lembrar que nos dois mandatos de Dilma, dentre os 39 ministérios, 7 eram presididos por mulheres (18%). No primeiro mandato de Lula, dentre os 34 ministérios, 4 eram presididos por mulheres (aproximadamente 12%); no segundo, dentre os 36 ministérios, os que eram encabeçados por mulheres eram 5 (14%). Essa porcentagem, no governo Bolsonaro, cai para 9%.

Portanto, a maior preocupação do movimento feminista no momento talvez não deva ser correr atrás dos direitos das mulheres, e sim tentar manter os poucos que já foram conquistados, pois estes estão cada vez mais em risco. Pode não demorar muito para que tentem revogar o aborto até mesmo em casos de estupro, pode não demorar muito para que tentem proibir métodos anticoncepcionais por serem considerados abortivos, pode não demorar muito para que as mulheres percam até mesmo o direito de trabalhar no que querem. Tendo isso tudo em vista, devemos sim nos preocupar com a conquista de direitos e a busca pela igualdade, mas será difícil conciliar essa batalha com a luta de defesa pelo que já conquistamos. Vale lembrar que as mulheres são as que mais rejeitam Bolsonaro desde antes das eleições; então, carregamos e somos boa parte da resistência aos retrocessos. Não podemos nos calar diante um governo que deseja nos diminuir, repreender e oprimir; que exalta torturadores que estupravam e torturavam mulheres até a morte, estando estas grávidas ou não; podemos e devemos resistir. Jamais desistiremos. Nunca vão nos calar.