“O Mundo Não Será o Mesmo”: Nova música de Le Eloi é um manifesto contra a obscuridade

“Um governo que culpa todos ao redor pela sua própria negligência e impotência, é incapaz de enxergar o mundo fora da sua bolha ideológica, e faz com que a indignação se transforme em uma legitima reação popular de descontentamento.” Assim Le Eloi anunciou seu novo trabalho nas redes sociais.

Por: Alam Moura

O ano de 2020 está sendo para muitos, um dos mais difíceis, e isso vai além da crise devido à pandemia causada pelo Coronavirus. Se os países que possuem uma estabilidade política estão em dificuldades devido ao crescimento de casos da Covid19, no Brasil a crise é potencializada pela caos político que já dura alguns anos e se acentuou após a ascensão da extrema-direita com a eleição de Jair Bolsonaro a Presidência da República em 2018.

Como em qualquer momento autoritário da nossa história, o primeiro alvo, que muitas vezes é usado como estratégia para calar as massas, é o ataque a cultura. No caso do Brasil atual, apesar das inúmeras tentativas de censura, podemos dizer, com orgulho, que os artistas independentes estão resistindo bravamente e porque não dizer, batendo de frente contra todas as tentativas de repressão por parte do atual Governo.

Entre esses guerreiros, conversamos com o Rapper Le Eloi, oriundo da Zona Leste de São Paulo, que divulgou no último domingo nas redes sociais, a música, (que poderíamos muito bem chamar de manifesto popular), “O Mundo Não Será o Mesmo”, um recado direto e reto mostrando que arte nas ruas continua viva, mesmo com todas as tentativas de repressão.

Conseguir mostrar a realidade de um momento tão significativo é uma mensagem para todos que o Lado B do Rap ainda é forte:

“No Rap, eu vejo que a grande maioria são os mais radicais, os dinossauros mesmo da parada, sempre teve bastante preocupação com esse momento que a gente está passando sabe, e a visão dos caras sempre foi mais política. E hoje eu vejo que muitas pessoas estão esquecendo o lado B da parada do rap, tem o lado A e o lado B, estão esquecendo o lado B e focando somente no lado A. É natural esse ciclo, mas é muito perigoso, é perigoso porque as coisas viraram somente Fast Food, e acho que é importante também ter o lado B, é bom ter esse equilíbrio. E é por isso que eu bato nessa tecla trazendo. E também tem outros, como Djonga, como ADL, MV Bill, pessoas que tem a oportunidade, que cresceram e mantem uma ideologia, mantem o respeito e o carinho por uma boa informação. Então eu vejo com bons olhos o tratamento que essa nova geração está tendo, não todos, mas uma parcela importante está tendo um tratamento bom.”

A atual crise causada pelo Coronavirus acabou escancarando questões que antes muitos se negavam a reconhecer, a necessidade e importância do SUS (Sistema Único de Saúde), a precariedade em muitos setores de trabalho que hoje se mostram essenciais, a solidariedade de muitos e o egoísmo de outros. Porém, a ignorância por parte de uma boa parcela da população foi exposta, e a negação e ódio com praticamente todos que estão ligados à produção cultural, Le Eloi falou seu pensamento sobre a essa questão e a necessidade em ir além do discurso, produzir, e o papel da música em um momento tão obscuro em nosso país.

“Então o que eu posso dizer sobre os artistas independentes, é se estruturar. Eu sei que é difícil, desde a composição, a produção e o trabalho de marketing, cada um tem um ciclo. E sei que de cada passo de um artista independente para produzir a sua canção a parte financeira é a que mais pesa. Então o que eu posso dizer e passar para a nova geração, é que o mundo não vai ser mais o mesmo cara, então, cada vez mais pessoas tem que se estruturar, se tornando independente desde a base, de aprender a produzir, de ter seu próprio home Studio. Por conta desse isolamento social, conforme for estendendo, a gente acaba percebendo que a melhor forma é ter as ferramentas dentro da nossa própria casa para não deixar esse ciclo quebrar. E o que a gente tem que fazer é continuar se organizando e produzindo, trazendo coisas com uma boa informação.

A Música além do Entretenimento:

“O entretenimento é importante, eu sei disso, mas tem de trazer uma boa informação como o Rap já fez, a importância igual ao Racionais, a importância de se levantar a questão sobre o Carandiru, depois de uns anos a gente viu que o Carandiru foi desativado, e eu não vou dizer que o grande responsável por isso foi o Mano Brow, foi todo um coletivo de pessoas que por anos, as pessoas foram denunciando, todo tipo de ato desumano de como os detentos viviam. Mas o Rap ajudou nisso, trazendo essa informação e não é diferente hoje, por isso que eu falo, as pessoas não querem falar sobre esse vírus porque todo momento está falando na televisão, mas porque eu começo a falar sobre esse vírus? Porque a gente tem que começar a mostrar o posicionamento do rap também, o posicionamento de um movimento que vive as margens […] eu vejo que é um grande compromisso e responsabilidade,  principalmente do Rap, e nós não somos agentes sociais, mas a gente automaticamente trás uma bagagem e uma herança de que quem tem, mesmo dessa nova geração, se tem um carinho e um respeito por tudo que já foi construído até o momento de 2020 e hoje se a gente ouve um som de qualidade, é porque muitas águas rolaram, então é por isso que eu acho importante a gente nunca deixar a informação morrer e ai sim, depois que você se estruturar e manter sua ideologia firme e não parar de trabalhar, ai eu posso dizer pra você que com certeza a gente vai ter o nosso espaço garantido.”