O feminismo nos moldes do Brasil atual

 

Por: Hannah Ramos 

Atualmente, o feminismo é visto de maneiras múltiplas nas terras tupiniquins. Como movimento social, ele está suscetível a ser interpretado por todas as visões de mundo que existem por aí. No cenário brasileiro em que vivemos, a polarização política levou a pauta feminista a ser vista de maneira muito deturpada por grande parte da classe média predominante, enquanto, paradoxalmente, ela angaria cada vez mais militantes. As gerações mais novas estão cada vez mais adeptas do movimento, o que significa que a visão negativa que ele tem pode (e muito provavelmente irá) mudar nos próximos anos.

A demonização dos movimentos sociais vem sendo fomentada desde 2013. Hoje, muitos já desejam a proibição de movimentos sem-terra (seja o MST ou o MTST) e a revogação de leis que muito ajudaram na luta contra o preconceito (como a criminalização do racismo e a lei do feminicídio). Isso só deixa cada vez mais claro que reina desinformação sobre todas essas pautas, e o feminismo é o alvo mais claro disso. Mesmo que a juventude feminina esteja se juntando e lutando cada vez mais pelos direitos e pela representação da mulher, conseguindo cada vez mais significativa visibilidade, o movimento é alvo de críticas pouco construtivas e embasadas quase que em sua totalidade no machismo, no sexismo e na misoginia.

A cultura brasileira acerca da mais nova geração do feminismo que se forma aponta suas integrantes como “sujas”, “abortistas”, “supremacistas” e outras concepções errôneas (além de preconceituosas). “Eu acho que ainda tem muita falta de conhecimento por parte das pessoas, e como se não bastasse a falta de conhecimento, não existe vontade de aprender”, disse Vitória Perpétuo Bruno, 18 anos, estudante de História na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP e integrante do Coletivo Feminista Maria Bonita. “Acho que ainda não é visto como deveria ser. Acredito que existe muito preconceito, ignorância e resistência às ideias por conta de uma sociedade patriarcal e misógina”, continuou.

Vitória não é a única garota que pensa dessa maneira. Muitas jovens feministas acreditam que o movimento é muito mal interpretado. “Infelizmente, acredito que a visão da maioria das pessoas sobre feminismo ainda é extremamente deturpada, fazendo com que o movimento seja sempre ligado a extremismos e ao ódio, quando na verdade não se trata nem um pouco disso. A sociedade brasileira ainda é muito conservadora e como o feminismo incentiva a liberdade da mulher, isso acaba assustando alguns e fazendo com que estereótipos ruins sobre as integrantes acabe sendo passado adiante”, relatou Luanna Rodrigues dos Santos, 18 anos, estudante.

A visão de que a sociedade brasileira é intolerante para com o desejo de igualdade de gênero não é exagerada. Uma pesquisa divulgada pelo Datafolha no dia 22 de agosto deste ano mostra que 59% dos brasileiros são contrários a mudanças na atual lei do aborto, que só o permite quando a gravidez é resultado de um estupro, quando há risco de vida para a mulher e se o feto for anencéfalo. Além disso, 58% da população acredita que as mulheres que fazem abortos devem ser processadas e ir para a cadeia, enquanto apenas 33% discordam dessa opinião. A pesquisa mostra que a maioria esmagadora é contra o poder de liberdade e decisão da mulher sobre seu próprio corpo (e até que deveria ser punida mesmo sendo feito legalmente), pois apenas 14% dos brasileiros acham que o aborto deveria deixar de ser crime em qualquer caso. É mais que claro que a questão não é ser “pró-vida”, e sim “pró-nascimento”: o abandono parental (ou aborto masculino) é quase epidêmico no Brasil, chegando a ter 5,5 milhões de crianças sem pai no registro. Os dados levantam uma questão importante: por que o homem pode decidir se quer o filho ou não, e a mulher deve tê-lo obrigatoriamente como uma “punição” por “abrir as pernas”? A resposta disso está no cerne da sociedade patriarcal que vivemos.

Outro fato importante é o levantado pelo mercado de trabalho brasileiro, numa pesquisa feita pela Catho em março deste ano: as mulheres ganham menos que os homens em todos os cargos, áreas de atuação e níveis de escolaridade pesquisados, e as diferenças salarias chegam a quase 53%. Como se não bastasse, as mulheres são minoria ocupando cargos principais de gestão, mesmo sendo, em números absolutos, a maior parte da população brasileira. Porém, comparados a pesquisas anteriores, esses números aumentaram; sinal de que a luta feminista vem conseguindo resultados importantes.

Pra nova geração, ser feminista significa diminuir cada vez mais as desigualdades entre os gêneros e também ter um local no qual sua voz seja ouvida e respeitada. “O feminismo também é uma forma de união, para que as mulheres se apoiem e se defendam na nossa sociedade machista”, disse Andressa Gasparini Vital, 18 anos, estudante. “Meu papel como feminista é demonstrar apoio a mulheres que precisarem e tentar conquistar meu espaço”, continuou. Essa é uma visão recorrente sobre os papéis sociais que o movimento traz: “acredito que o feminismo está sendo melhor representado, mas ainda tem muito preconceito com a palavra em si. Acho que temos que dialogar sempre que possível, principalmente com os desinformados. É uma questão social muito importante e antiga. Acredito na evolução do movimento; cada luta é importante para causa”, afirmou Letícia Marcela Campos, 18 anos, estudante de Medicina Veterinária. O diálogo com outras mulheres é uma visão recorrente entre as militantes: “demorei para entender meu papel como mulher e como militante feminista. No começo, eu achava que tinha que carregar o mundo nas costas, brigar com todos os homens machistas na internet e na rua que encontrasse. Mas aí eu vi que, além de não adiantar nada, eu estava escolhendo a batalha errada. Acredito que é muito mais eficiente conversar com mulheres que não entendem o feminismo ou não o conhecem e trazê-las para o movimento do que brigar inutilmente com homens, sabe?”, comentou Giovanna Cabral, 20 anos, professora de inglês. “Também tento ajudar a próxima que vejo que está correndo algum risco, como uma vizinha com marido que a bate, uma colega com namorado abusivo, ou até uma estranha chorando no metrô. Temos que cuidar uma das outras”, continuou.

Mesmo dentro da educação básica, o feminismo se mostra forte. As feministas mais jovens têm forte percepção da realidade em que vivem e sabem que tem muita luta pela frente. “Por certo ponto de vista, o feminismo é visto como algo fútil, como vitimização feminina. Por outro lado, é visto como um movimento importante para a igualdade entre os sexos”, relatou Munique Lopes Bacanieski Pereira, 15 anos. “O meu papel como feminista é abrir os olhos do máximo de pessoas possíveis que estiverem ao meu alcance e mostrá-las a importância do movimento”.

Mesmo com o aumento de adeptas e visibilidade da pauta na sociedade brasileira atual, a resistência a esse tipo de movimento é muito forte e eles são, muitas vezes, desvalorizados. Muitos (e não apenas homens como também mulheres) esquecem que conquistas importantes, como o direito ao voto, ao trabalho, à independência das mulheres foram alcançadas por causa dos primeiros movimentos feministas, que alcançaram uma escala extremamente expressiva no mundo inteiro. O punk feminista, denominado de riot grrl, deu voz às mulheres em ambientes que elas não tinham espaço (a cena musical de Seattle e Washington), por exemplo, o que permitiu com que muitas insatisfações fossem verbalizadas e que a revolta feminina fosse fomentada para alcançar seus direitos básicos de igualdade. Até o uso de minissaias e biquínis foram questões que, um dia, eram delicadas e mulheres foram até presas por trajá-los. Só isso demonstra o quanto essa pauta deveras subestimada mudou o mundo e ajudou a construir a sociedade que conhecemos hoje, que mesmo que ainda seja repleta de misoginia, permite certas liberdades às mulheres.

 

Bikini Kill, feminismo e cena riot grrl

 

O problema é que o conservadorismo tupiniquim fez com o povo acreditasse que feministas fossem vilãs, destruidoras de lares e famílias e verdadeiras “odiadoras de homens”. Isso levou a estereótipos terríveis que, consequentemente, se tornaram preconceitos e discursos de ódios direcionados à mulheres que simplesmente se autodenominam feministas. Obviamente, essa situação só ajuda a marginalizar cada vez mais a mulher e seu papel na sociedade. “Quando eu e algumas meninas protestávamos sobre questões de trabalhos na escola, ouvíamos como respostas coisas como ‘lá vem as feministas mimizentas’, ‘não sei como têm namorados’ e ‘já que vocês são mulheres, vocês limpam as bagunças do trabalho'”, relatou Luanna. “Já sofri com o machismo por não querer fazer comida para o meu namorado. Minha mãe acha que feminista não se depila. Já fui chamada de ‘feminazi’ por isso”, disse Letícia. Vitória mostrou ter sofrido preconceitos semelhantes por se considerar feminista: “dentro de casa e no ciclo de amigas, já fui chamada de abortista, de porca – porque toda feminista é peluda -, de intolerante”.

Uma das maiores provas do ódio ao redor do movimento é o que as meninas sofrem dentro da própria casa, seja por desinformação sobre o mesmo ou apenas discursos retrógrados. “Segundo a minha mãe, eu ando sem sutiã pelos lugares porque sou feminista, e segundo meu irmão, eu faço muito ‘mimimi’. Mas meu outro irmão foi o primeiro a reclamar desse meu ‘jeito’: disse que se eu continuasse assim, ficaria sozinha e não arrumaria um marido pra mim”, contou Andressa. “Sinceramente, me senti como se estivesse nos anos 1940 e eu precisasse desesperadamente de um marido e da aprovação masculina”.

Para o feminismo ganhar mais visibilidade, os coletivos e até mesmo feministas independentes se organizam em reuniões, palestras, passeatas e outras movimentações do tipo para discutir o papel da mulher na sociedade e o que pode ser feito para que as mulheres consigam maior igualdade de direitos. A maioria das universidades, hoje em dia, apresentam coletivos feministas nos quais as estudantes podem debater pautas do movimento e fazer denúncias de abuso sexual e/ou moral sofrido no campus, o que vem melhorando a convivência entre os locais e reservando dignidade para as garotas.

Infelizmente, isso tudo pode não ser o suficiente. O machismo ganhou ainda mais voz e representatividade hoje em dia, com a população elegendo deputados, senadores, governadores e até presidentes que minimizam mulheres e outras minorias, dizendo que “mulher deve ganhar menos porque engravida” ou que nunca estupraria uma mulher porque ela “não merece”. O que eleger pessoas com esse tipo de atitude significa? Significa que além da sociedade ser patriarcal e misógina, o retrocesso social que esses movimentos conseguiram impedir virá com tudo. As lutas serão reduzidas a nada, terão forte repressão e podemos até perder direitos que lutamos tanto para conseguir. Essas atitudes sendo reproduzidas por quem supostamente nos representa legitima uma violência que quem não faz parte das minorias nunca vai conhecer. Normaliza uma vida repleta de medo pelo outro, o que não deveria em hipótese alguma ser normal.

Pode até parecer que tudo está perdido, mas não nos deixemos enganar: agora sim é o momento de lutar. Os movimentos estiveram todos se preparando, crescendo e se informando para que seja possível a sobrevivência em tempos sombrios. O feminismo hoje pode ser demonizado, mas é igualmente forte em seu apoio. O momento é de resistência, e não se deve recuar agora. A pluralidade de ideias e a diversidade não devem abaixar a cabeça pra nenhum tipo de imposição. Resistiremos.