O Exército, o genocídio e a tortura

Se tivessem grandeza moral, os generais deixariam os cargos no governo Bolsonaro e pediriam desculpas pelos crimes cometidos na ditadura

Fonte: Ultrajano – POR OCTAVIO COSTA

Por considerar levianas as afirmações de Gilmar Mendes, o ministro da Defesa, Fernando Azevedo, entrou com representação na Procuradoria Geral da República contra o ministro do STF. A ação de Azevedo conta com o endosso dos comandantes do Exército, da Marinha e Aeronáutica. Todos eles se sentiram gravemente ofendidos porque Gilmar, ao comentar os erros do governo Bolsonaro diante da pandemia, afirmou que “o Exército está se associando a esse genocídio”. O vice-presidente Hamilton Mourão também exigiu que Gilmar peça desculpas. “Se tiver grandeza moral, ele tem de se retratar”, disse Mourão.

Nossos generais chegam a ser engraçados. Sentem-se ofendidos, mas estão tutelando o governo do Capitão Corona e ocupam os principais cargos no Palácio do Planalto. Pelo levantamento dos jornais, há hoje mais de 3 mil militares no Executivo. Um deles é o general Eduardo Pazuello, ministro interino do Ministério da Saúde. Ou seja, temos à frente do combate à pandemia um oficial do Exército, que não entende nada de saúde. Como agravante, Pazuello afastou mais de 30 técnicos de notória competência e os substituiu por militares sem qualquer formação na área. Enquanto isso, o Brasil soma 74.133 mortes pela Covid e 1,92 milhão de casos confirmados.

Se o governo Bolsonaro está ou não cometendo um genocídio, a Justiça dirá mais à frente. Mas que os militares estão exercendo funções que vão muito além do que a Constituição prevê, não há qualquer dúvida. Até as pedras da Praça dos Três Poderes sabem disso. Gilmar Mendes pode ter exagerado nas palavras, mas acertou na mosca. Os generais (alguns na ativa) que tutelam Bolsonaro estão fazendo política e são cúmplices dos desatinos do ex-capitão. Mesmo na interinidade, o general Pazuello é, sim, responsável pela política de saúde do país. 

Dizem que, diante das pressões, Pazzuelo será substituído ainda esta semana. Mal ou bem, ele não resistiu à crítica de Gilmar Mendes. Mas isso não vai alterar o quadro geral de desgaste do Exército por sustentar o desgoverno Bolsonaro. O ministro da Defesa participou, recentemente, de ato contra o Congresso e o STF a bordo de um helicóptero oficial. Apoiou um ato contra a democracia, de forma leviana e irresponsável. Mas agora tem o atrevimento de processar um ministro do STF que falou a verdade. 

Usando as palavras de Hamilton Mourão, se tivessem grandeza moral, os generais deixariam os seus cargos no Executivo. As Forças Armadas brasileiras pertencem ao povo brasileiro, e não a este ou aquele governo. O Exército é uma instituição de Estado, que não pode e não deve se vincular a projetos políticos pessoais e ambições de poder.

É lamentável assistir ao envolvimento de militares de alta patente com o governo Bolsonaro. Nosso Exército parece não ter aprendido com o profundo desgaste que sofreu pelos crimes cometidos nos quartéis e fora deles durante a ditadura. A tortura, a morte e o desaparecimento de mais de 400 brasileiros e brasileiras são uma mancha de sangue que não se apagará tão cedo. Quem viveu durante a ditadura militar não esquecerá jamais. 

Em outros países da América do Sul, os militares reconheceram seus crimes e se desculparam à Nação. Alguns ditadores e torturadores foram condenados a penas pesadas. No Brasil, nada disso aconteceu. Se tivessem grandeza moral, nossos generais não só se afastariam de Jair Bolsonaro, como também pediriam desculpas pelos horrores dos anos de chumbo.