O equilíbrio nos filmes de Willem Dafoe

Willem Dafoe não tinha a menor ideia de quem era Nuidis Vulko dentro do universo das histórias em quadrinhos da DC Comics.

Willem Dafoe não tinha a menor ideia de quem era Nuidis Vulko dentro do universo das histórias em quadrinhos da DC Comics, quando foi convidado para viver o conselheiro de Aquaman em “Liga da Justiça”, que está sendo filmado na Inglaterra e tem previsão de estreia para 2017. Mas o ator norte-americano também desconhecia completamente a existência de Norman Osborn, e de seu alter ego Duende Verde, o vilão da Marvel, quando entrou para a milionária franquia “Homem-Aranha”, pouco mais de uma década atrás.

Tampouco sentiu necessidade de recorrer aos gibis para conhecê-los. “Às vezes, o excesso de informação sobre o personagem atrapalha, tira o foco do trabalho do ator. Dependendo do filme, o que ajuda mais na composição é o figurino, a concepção visual, o cenário, como é o caso de produções como ‘Liga da Justiça'”, contou o ator ao UOL, durante sua passagem pelo Bergman Week, festival que celebra a vida e a obra do cineasta Ingmar Bergman em Faro, na Suécia.

UOL – É curioso encontrá-lo em um evento que celebra um diretor de filmes de arte, sabendo que em poucas semanas você estará fazendo um filme de super-heróis…

Willem Dafoe – É como seu eu fosse um cara com uma amante: quando o marido dela chega, eu fujo, e ele continua sem saber da minha existência (risos). Porque eles têm pouco a ver um com outro, pelo menos socialmente. Mas tenho passado por esse tipo de experiência minha vida toda, e mesmo antes de fazer cinema, quando trabalhava com uma companhia de teatro experimental [a The Wooster Group] em Nova York. Algumas pessoas que faziam teatro comigo nunca haviam visto um filme meu, mesmo os filmes de arte. E o povo de cinema, em geral, não tem a menor ideia do meu trabalho com teatro. Porque não havia ligação, referências.

É como se você tivesse dois públicos diferentes?

Sim, um pouco. E isso acontece mesmo entre o meu público de cinema, porque uma pessoa de cultura cinematográfica mediana desenvolve o gosto por um certo tipo de filme. Posso dizer que alguns acham que fiz uns dez blockbusters só pelo modo como me abordam na rua. Esse grupo acha que vivo na beira da piscina de minha mansão em Hollywood atendendo as ligações do meu agente. Há um outro grupo de fãs que acha que só faço filmes de arte. Acredito que um público desconheça o outro.

E o que você já pode dizer sobre o personagem em “Liga da Justiça”?

Nuidis Vulko ajuda o herói, que é o Aquaman. Na verdade, a minha participação em “Liga da Justiça” será relativamente pequena, mas funcionará para apresentar e preparar uma relação mais substanciosa de Nuidis com Aquaman. E isso porque Aquaman terá um filme só dele em um futuro próximo, no qual o meu personagem será uma espécie de conselheiro muito respeitado pelo herói submarino. Nuidis Vulko será o cara mais velho e experiente que guiará o jovem e angustiado Aquaman a atravessar seus problemas e confusões mentais. Pelo menos é assim que o personagem me foi explicado.

O interessante é que você será um dos poucos atores que foi vilão em uma história da Marvel e herói em uma história da DC Comics.

Sim. Há outro ator que participou dos dois universos também, aquele cara que interpretou um editor do jornal “Clarim Diário” em “Homem-Aranha”. Não me lembro o nome dele agora. Ele fez um filme recente sobre jazz, “Whiplash: Em Busca da Perfeição” (2014). Chegou a ganhar o Oscar por esse filme…

J.K. Simon.

Isso! Ele fez o editor John Jonah Jameson na série “Homem-Aranha” e vai fazer o comissário Gordon em “Liga da Justiça”. E só sei disso porque me contaram, sabe? (risos) Mas, sim, o editor do “Clarim” não era exatamente um herói ou um vilão.

Você não parece muito familiarizado com o mundo dos quadrinhos…

Às vezes é uma bênção não conhecer a origem de seu personagem, tenha ele vindo de um romance ou uma história em quadrinhos. Quando trabalho com um personagem baseado em um livro, por exemplo, e procuro ler esse livro, eu acabo me afastando do trabalho do ator, que é criar um personagem. Porque ele pode ter vindo de um romance, mas não estamos fazendo um livro. Tendemos a nos afastar na nossa mente quando um livro está ocupando espaço no nosso coração. Não diria que a ignorância é uma bênção mas, às vezes, é bom ser claro no que estamos fazendo no momento sem criar ligações com outras fontes. Vale também para histórias em quadrinhos.

Na prática, como essa “ignorância” sobre a fonte de uma adaptação pode ser benéfica?

Ajuda, em particular, em termos de concepção visual, e na condução da narrativa, no jeito de contar a história. Porque, acredite, outras pessoas se preocupam muito com a fidelidade ao material, só para manter os fãs satisfeitos com a adaptação. Mas o meu trabalho não é esse, meu trabalho é habitar o personagem e, às vezes, é como se existisse mesmo essa coisa que chamamos de excesso de informação. A gente só consegue manter uma certa quantidade de ideias sobre o personagem por vez.

Você nunca sentiu vontade de recorrer às revistas em quadrinhos para conhecer seus personagens?

Só se seu sentisse que não sabia o que deveria fazer, ou me sentisse uma fagulha de curiosidade, ou me visse animado com o que estava fazendo. Só me envolvo completamente com um projeto que me pareça interessante. Isso é o suficiente. Se estou no caminho certo, isso é uma questão para o diretor ou o produtor. Minha responsabilidade é a qualidade do meu envolvimento com o filme, se estou fazendo algo de forma profundamente comprometida. Então, não me preocupo com essa coisa de ser fiel ao material original.

Mas então o que acha de interessante em Nuidis Vulko ou na “Liga da Justiça”?

É uma combinação de coisas. Sempre acreditei que é bom misturar suas formas de trabalhar, e misturar funções. E, em termos de saúde da carreira, é bom equilibrar papéis em filmes grandes e pequenos. Fiz muitos filmes, mas os que normalmente me dão mais orgulho são tão pequenos que às vezes nem conseguem uma distribuição apropriada, e são difíceis de financiar. Mas posso pegar um pouco do cachê ou da exposição conquistada com os filmes grandes e usá-los para ajudar a produzir os filmes pequenos. Uma vez no set, é apenas uma questão de se preocupar com a performance, em resolver problemas. O que muda é o universo em que essa performance ocorre.

O roteiro é suficiente para você?

Nunca é suficiente. O gatilho para um personagem normalmente não vem do roteiro, vem do figurino, do design, do universo em que o personagem habita. Por exemplo, ao fazer “Pasolini” (2014), conheci sobre o diretor italiano, mas trabalhava em colaboração com o diretor do filme, o Abel Ferrara, de forma íntima, então fiz bastante pesquisas para entrar na cabeça dele.

Fazer filmes como “Homem-Aranha” ou “Liga da Justiça” também é uma forma de rejuvenescer a sua base de fãs, não?

Certamente. Pouco tempo atrás participei de um filme chamado “A Culpa é das Estrelas” que é, basicamente, uma história de amor voltada para o público jovem. Foi uma produção modesta, que custou uns US$ 10 milhões, e que acabou se transformando em um sucesso enorme. Agora, garotas de 13 anos me conhecem daquele filme. “Ah, você é aquele cara de ‘A Culpa é das Estrelas'”. Claro, porque elas não me viram em “Anticristo” quando tinham oito anos, ou em “Homem-Aranha”, que já faz algum tempo. (risos) Pessoas de diferentes idades me conhecem por trabalhos diferentes, e assim está muito bom. E agora vão se lembrar de mim por causa do Nuidis de “Liga da Justiça” ou do próximo filme do Aquaman.

Via UOL

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