O drama Argentino serve de alerta para o Brasil

Por: Alam Moura

A final da Copa Libertadores de 2018, que não aconteceu, e todos os problemas que resultaram no adiamento da partida, fazem parte de um roteiro típico de um “Drama Argentino”, o que assistimos no último sábado foi um filme com começo, meio e sem fim, um toque de suspense com atuação do grande Ricardo Darín.

Sim, eles conseguiram transformar o que poderia ser a maior decisão continental de todos os tempos no maior fiasco da história do futebol, porém o ocorrido não passa apenas pela esfera esportiva, mas também pelo momento delicado que a América Latina enfrenta neste final da segunda década do século XXI.

Em meio a uma de suas piores crises desde 2001, quando teve cinco presidentes no intervalo de uma semana, o Governo Argentino, agora com o Presidente Mauricio Macri vem enfrentando inúmeros protestos e críticas pela forma que vem conduzindo seu Governo, resultado de decisões controversas em relação a políticas econômicas e sociais.

Embora muitos ainda não admitam que debate futebol e política caminhem juntos, é inevitável desassociar um do outro. O atual Presidente Argentino se fez como homem público através do futebol, foi presidente do Boca Juniors, o que fez conhecido no país, projetando anos mais tarde concorrer e eleger-se Prefeito de Buenos Aires.

A violência ocorrida no último sábado, que estampou a capa dos principais jornais do Mundo, não se limita a questão esportiva, podemos dizer que, com exceção do Uruguai, praticamente toda América Latina passa por uma “crise de representatividade”, Governos que não são reconhecidos legitimamente, autoritarismo, falta de transparência, corrupção e aumento expressivo da desigualdade social.

É importante destacar que o futebol Argentino adotou a Torcida Única alguns anos antes do Brasil importar essa prática, o que fica claro que o problema vai muito além do estádio, é sim uma questão de estado, um atestado de incompetência das autoridades que ao invés de buscar uma solução empurram para os clubes, mas esquecem de que a grande maioria das ocorrências entre torcedores são registradas a quilômetros do local da partida.

Precisamos olhar o ocorrido no ultimo sábado não como meros expectadores da tragédia moral dos nossos vizinhos, mas como um alerta, pois tudo que aconteceu em Buenos Aires vem ocorrendo aqui há anos, porém com proporção muito menor, pois o futebol argentino está refém dos Barra Brava.

Se na Argentina o Futebol é usado como instrumento político e pano de fundo para a violência, aqui também podemos citar inúmeros exemplos onde à violência e o desprezo pelo bom senso é usurpado por quem usa o futebol como pretexto. Não precisamos ir muito longe para lembrar o quão vergonhoso foi a última decisão da Copa Sul-americana no ano passado onde mais de 8.000 torcedores invadiram e quebraram as catracas do Maracanã e entraram sem pagar.

Apesar da repercussão no dia do jogo e até o dia seguinte em alguns programas, o caso foi esquecido como se estivesse relacionado diretamente ao futebol, pois como não houve vítimas nem violência física, a discussão na imprensa ficou apenas no campo da “falta de educação” o que serviu para colocar panos quentes e não entrar em um debate mais profundo, afinal, se entrarmos na esfera social, muitas atitudes que ainda hoje são toleradas, como racismo, homofobia, machismo teriam que entrar em pauta, o que não é interessante para muita gente, principalmente para e mídia esportiva, que sustenta a base da audiência em sua grande maioria nesse perfil de público, que acredita que no futebol “tudo pode” e todos devem aceitar calados.

Não adianta a imprensa e os órgãos responsáveis querer fazer o caminho contrário e usar o Futebol para justificar e tentar mudar o comportamento da sociedade. O esporte é apenas um reflexo do que somos no cotidiano. O que aconteceu sábado é resultado de uma crise moral que ocorre na América Latina, e nós Brasileiros temos que olhar com muita atenção, pois todos os dias ocorrem muitos “River(s)x Bocas(s)” em vários cantos do país que não queremos enxergar.