“O DJ continua sendo o cara que vai lançar tendências” Thiago Deejay fala sobre o atual momento da cena alternativa e de sua carreira

Por: Alam Moura/ Edu Ramos

Radialista e DJ há vinte anos: esse é Thiago Deejay. Conhecido por ser responsável pelos programas Heavy Pero No Mucho e Rock’N’Roll Party, ambos na 89FM – A Rádio Rock, é também uma figura importante na cena alternativa marcando presença como DJ em diversas festas, festivais, eventos e shows nacionais e internacionais. No último mês, entre uma pausa e outra durante sua discotecagem na Festa dos Perdidos (localizada no Clube Outs em São Paulo), batemos um papo sobre o atual momento da cena alternativa, sua carreira e os desafios da música e trabalho com o advento das novas tecnologias.

Thiago Deejay – responsável pelos programas Heavy Pero No Mucho e Rock’N’Roll Party, ambos na 89FM

O.P: Tendo uma longa experiência dentro da música, principalmente dentro da cena underground, como você vê as mudanças que ocorreram ao longo dos anos desde quando começou até os dias atuais?

Thiago Deejay: A grande diferença é a tecnologia. A nossa geração passou por uma revolução tecnológica gigantesca de 20 e 30 anos pra cá, praticamente mudou tudo. A gente usava orelhão e hoje você tem acesso ao mundo inteiro pela internet. Nós gravávamos demos e ainda tínhamos que correr atrás para entregar para as pessoas. Hoje você posta seu trampo pela internet para todo mundo ver, é muito mais fácil, só que eu acho que tem muita informação e ninguém consegue focar, então fica meio bagunçado o negócio. Eu acho que naquela época a gente focava numa coisa só e aprendia tudo sobre aquilo e hoje em dia é uma overdose de informação. Apesar de ser mais fácil em muitos aspectos, para a geração que vem é mais complicado de assimilar as coisas. Falando especificamente de música.

O.P: Hoje no Brasil estamos vivendo um momento de extrema polarização política, muitos artistas estão se posicionando e, por consequência, sendo criticados e perdendo fãs. Para você até que ponto vale a pena essa exposição e como você vê o papel do artista no nosso atual momento?

Thiago Deejay: Inclusive perdendo shows, pois teve um do Detonautas cancelado no Rio de Janeiro, um show de rádio, e a explicação foi “forças ocultas”. Falaram que os caras não iam tocar e ponto. Eu acho que tem que se posicionar mesmo, todo mundo tem um lado, não adianta querer ser neutro, pois é mentira, isso não existe. Mesmo tendo a necessidade de se posicionar, sempre vai pagar o preço. Eu atualmente estou lendo a biografia do Planet Hemp e, embora eu tenha vivido a época, não lembrava que eles pagaram um preço tão alto nos anos 90… Perderam vários shows, foram presos. Então, querendo ou não, tudo é política. E todo mundo que se posicionar vai pagar o preço, agora ou lá na frente.

O.P: Vamos falar de bandas independentes, algo que você conhece muito bem. Até hoje muitos reclamam da falta de espaço na grande mídia e o fato de sempre terem de se render ao mainstream. Como você avalia a cena para as bandas independentes, as casas, os shows, eventos e festivas?

Thiago Deejay: Tem pra caralho, acho que até demais. Por exemplo: em São Paulo tem um monte de shows no mesmo dia e horário, inclusive de bandas independentes, só que eu acho que teve uma época que era muito trampo conseguir fazer as coisas e depois a coisa ficou muito grande e muito mais fácil. É por isso que todo mundo acaba achando que é tudo muito fácil, o que não é. Tem que trabalhar pra caralho. Se você pegar qualquer banda que estourou e está bombando, os caras trabalharam pra caralho, nada caiu do céu. O cara pode até ter quem indique, mas se ele não for bom, não vai pra frente, não vai ser a verdade dele, o público vai se ligar e vai cair. E é isso, tem bastante coisa, mas o pessoal tem trabalhar pra caralho.


“Toda vez que eu toco alguém vêm perguntar de alguma coisa, mesmo tendo toda a informação do mundo, mesmo com o Shazam, o cara faz questão de chegar no DJ para saber o que está ouvindo ”
Thiago Deejay

O.P: Nos anos 90, a figura do DJ nos clubes underground era basicamente a de alguém influente no meio da música que conseguia trazer algum tipo de informação do exterior que o pessoal daqui não tinha alcance, absorvendo e criando tendências. Muitos traziam discos de fora apresentando bandas e músicas novas diretamente nas pistas de dança e muita gente frequentava os lugares justamente por isso. Hoje, com o excesso e a facilidade de informação, como você vê o papel do DJ? Ainda é o cara que vai criar uma tendência e lançar algo novo ou é mais fazer a festa e tocar o que todo mundo quer ouvir?

Thiago Deejay: Eu acho que o DJ continua sendo o cara que vai lançar tendências, mas está cada vez mais difícil você conseguir lançar alguma coisa; sair de uma estética já formada é mais complicado. E é mais complicado até para conseguir referência, por exemplo: quando comecei em discotecar em 1999 eu sabia que se estava tocando alguma musica na Rádio 89 ou um clipe na MTV, aquilo era um hit. Hoje em dia é mais difícil identificar, pois o hit pode se formar na rádio, aqui na OUTS, na internet, tem muita coisa e é complicado até mesmo para o DJ conseguir projetar o que ele quer tocar. Mesmo assim eu acho que ele ainda continua sendo o cara que vai lançar tendências, que vai mostrar uma coisa diferente. Toda vez que eu toco alguém vêm perguntar de alguma coisa, mesmo tendo toda a informação do mundo, mesmo com o Shazam, o cara faz questão de chegar no DJ para saber o que está ouvindo, o que é legal, e por isso ele ainda é o cara que vai lançar tendências.

O.P: Falando sobre a rádio, como foi a transição de você sair de um horário comercial no programa que você fazia com a Luka (Ramona e A Hora dos Perdidos) para criar o Heavy Pero No Mucho? Qual a liberdade que você tem para fazer a programação na madrugada, qual é o critério para inserir um banda na programação e como funciona os bastidores do programa?

Thiago Deejay: Teve uma reunião entre meu chefe (o dono da rádio) e a Luka, e logo depois ela me ligou me dando a notícia que eu iria sair do Ramona, mas que eu iria ter um programa diário com duas horas de duração na madrugada e que eu poderia tocar o que eu quisesse, o que me deixou muito feliz. O programa não tem filtro nenhum, ninguém nunca boicotou nada, eu coloco o que eu quiser, quem faz o filtro sou eu. Eu que as vezes não apavoro muito. Não vou ficar tocando Napalm Death a noite inteira (risos). Procuro sempre dar uma variada de tudo que é dentro do rock alternativo, rap, alguma coisa de ska e reggae também, mas não tem nenhuma barreira, eu vou fazendo e vendo o que o pessoal gosta de ouvir e tocando. Mas foi ótimo, fora a saúde mental de não trabalhar durante o dia, não precisar pegar trânsito, isso me ajudou muito. Eu não quero trabalhar de dia nunca mais (risos).

O.P: Você veio de uma geração pré-internet e viveu toda a transição até hoje em dia. Ao mesmo tempo em que é um comunicador na rádio, você também se tornou em um influenciador digital. Como você lida com isso e como consegue ter esse contato de linguagem com um público que já cresceu inserido no mundo digital?

Thiago Deejay: Eu tenho que me atualizar constantemente porque tem algumas coisas que eu não sei, não fizeram parte da minha geração, é uma outra parada. Inclusive quando eu fui na exposição do Farofa (vocalista da lendária banda santista de hardcore, Garage Fuzz) que rolou no SESC Consolação, falava muito sobre isso e da pré-internet. Quando a gente trocava carta, quando era uma internet precária, mas era internet. Hoje em dia tem essa internet que é muito melhor. Eu virei influenciador digital por acaso, a coisa foi acontecendo e eu tenho que ver o que funciona ou não, o que é legal. Tenho que tomar cuidado com que eu falo, pois antigamente eu já fui muito mais irresponsável, falava qualquer coisa. Hoje eu tenho que pensar que algum moleque pode estar me ouvindo e eu posso influenciar ele a fazer uma parada que eu não vou gostar. Então é necessário ter todo esse filtro para fazer um monte de coisas, mas ao mesmo tempo é bem legal, o feedback é absurdamente rápido. O que antes você demorava dois meses para saber a repercussão, hoje é na hora, bateu. Ou você já tomou a porrada ou já ganhou um abraço.