Não pronunciar o nome dele? Agora é tarde.

Por: Alam Moura

Estamos a poucos dias da eleição mais complexa de toda a história, o país dividido e com as redes sociais servindo de palanque para discursos cruéis e sem nenhum respeito à dignidade humana. Não é novidade que a extrema-direita, que ficou um bom tempo no ostracismo, agora se sente a vontade para destilar seu ódio sem o menor pudor, pois pela primeira vez em décadas eles têm alguém que os “represente”.

Chamou-me a atenção alguns dias atrás campanhas de muitas vertentes da esquerda, orientando não citar o nome do candidato que até o momento lidera as pesquisas para presidência, com o justo argumento que, quanto mais falar o nome dele mais sua imagem seria propagada, gerando assim uma propaganda gratuita.

Embora eu aceite o argumento da possível propaganda gratuita, não podemos ignorar alguns motivos que levaram o Brasil para esse cenário único e preocupante em sua história, e para entender é fundamental não só os movimentos de esquerda, mas todas as pessoas que tem o mínimo de bom senso e se posicionam contra a qualquer discurso fascista, compreenda que muitas vezes sem perceber somos parte da engrenagem que da voz para esse tipo de politico.

Bolsonaro era apenas mais um deputado que queria chamar a atenção com seu discurso de ódio, como tantos outros naquela que é conhecida como bancada da bala, basta fazer uma rápida pesquisa para descobrir que existem centenas de deputados iguais ou pior que Bolsonaro. Mas porque ele conseguiu conquistar tantos adeptos? Simples, porque ele conseguiu transformar a esquerda em seu maior “cabo eleitoral”.

Há um bom tempo decidi viver numa “bolha social” em todas as redes, sigo Jornalistas e veículos que sejam compatíveis com a minha visão de mundo, não necessariamente concordando com tudo, mas que tenha minimamente uma posição ética e moral com aquilo que quero para minha vida e para a sociedade. Com o tempo eu percebi que isso não era o suficiente para me isolar, não ler ou ouvir coisas que eu não queria, pois todas as pessoas que eu sempre admirei compartilhavam seu discurso, fosse para criticar ou apenas mostrar sua indignação, o fato é que chegou ao ponto que a maioria estava fazendo exatamente o que ele queria, servindo de cabo eleitoral. Conheço pessoas que não o conheciam e não se posicionavam politicamente, mas nos conseguimos a proeza de apresenta-lo para esse eleitor que agora encontrou alguém que o represente.

Chegamos a um estágio que a última coisa que devemos fazer é não pronunciar o nome dele, se não fizemos durante anos, quando realmente era fundamental não dar voz ao discurso fascista, não será agora com o risco de uma tragédia democrática histórica batendo em nossa porta que vamos nos calar.

Temos que assumir nossos erros, gritar o mais alto possível e evitar que o discurso de Bolsonaro contra as mulheres vença, impedir que o Discurso do Bolsonaro contra todos LGBT chegue à vitória, lutar para que o discurso do Bolsonaro contra os negros não saia vencedor. Nosso papel moral e cívico antes de qualquer coisa é evitar a tragédia e após as eleições realizar uma reflexão profunda não sobre ele, pois sempre será inevitável que figuras desse tipo apareçam, mas sobre nós, e como evitar que esse erro se repita para as futuras gerações.