Margareth Menezes: “O afro sempre foi pop, mas está sendo mais visto hoje. Nós somos o dia a dia, nós somos o agora”

Cantora baiana, uma das pioneira da axé music, fala sobre novo projeto, feminilidade e racismo na sociedade brasileira

Fonte: EL PAÍS

Margareth Menezes não lembra de quando começou a cantar. “Ah, não tenho precisão disso, não”, ri com a voz grave e potente que lhe é característica. Só sabe que a música sempre fez parte de suas lembranças. Quando era pequena, via o avô tocar violão na Ilha de Maré, em Salvador, e, já no primário, era chamada pela professora para se apresentar no meio da sala de aula. Nos anos 1980, com os hits Faraó Elegibô, Maga —apelido de infância que a acompanhou na carreira artística— ganhou o Brasil como uma das pioneiras da axé music. Ao ouvir sua voz, o norte-americano David Byrne convidou-a para abrir seus shows mundo afora.

Aos 57 anos, Margareth nunca deixou de reverenciar a cultura e, principalmente, a música de raízes africanas. É a criadora do Movimento AfroPopBrasileiro. “O afropop é tipo um funk baiano”, disse em conversa com o EL PAÍS em São Paulo, onde fez três apresentações do seu mais recente álbum, Autêntica, com músicas autorais inéditas, em março, antes da pandemia do novo coronavírus estourar no país e colocar a turnê do novo trabalho em stand-by. “As lives têm sido uma válvula de escape, tanto para nós, artistas, quanto para o público”, conta por telefone, já em quarentena em casa, na capital baiana.

Depois de 32 anos de carreira, a cantora e compositora faz reflexões sobre sua vivência como mulher negra em um país racista e canta a beleza e a força feminina —”Mas sem padrões de gênero ou de beleza”— em um trabalho no qual colabora com jovens nomes da música brasileira, como Majur, Luedji Luna ou a banda Baiana System. “O cenário musical está muito efervescente, as pessoas não estão ligando para ser rotuladas disso ou daquilo. A galera está misturando, funk, samba e não sei mais o quê”, celebra a veterana. Por abraçar todas essas vertentes culturais, Maga foi nomeada no último dia 21 de agosto embaixadora do Folclore e da Cultura Popular do Brasil na ONU (Organização das Nações Unidas). “Vamos enfatizar o valor das artes que vêm do povo, esse saber popular que é um grande tesouro do país, chave da nossa identidade cultural tão diversa”, conta.

Margareth também é uma entusiasta da tecnologia na indústria da música, que, segundo ela, facilita as trocas e as pesquisas sonoras. “É o equivalente ao que o trio elétrico representou na música baiana: a gente ganhou um palco que andava com a música e, hoje, temos um equipamento que coloca sua música em qualquer lugar do mundo. Você grava aqui e daqui a pouco faz uma colaboração com alguém do Japão”.

Para alguém como ela, cuja cabeça funciona a mil por hora, sempre com novas ideias, não existe possibilidade melhor. “Eu sou muito ativa, né? Estou hoje trabalhando as músicas do Autêntica nas lives, mas já estou pensando em como fazer mais coisas acontecerem”. Tem pelo menos dois novos projetos em mente, sobre os quais não dá detalhes. “Assim que é bom!”.

Pergunta. Como seu trabalho amadureceu do último álbum para o Autêntica?

Resposta. Trabalho o afropop desde 1992, mas, ao longo desse tempo, meus trabalhos tiveram uma variedade muito grande. O Autêntica me motivou muito a compor, fazia tempo que não lançava nada com tantas canções minhas. Na questão da sonoridade, mantenho o referencial da música percussiva, esse pop contemporâneo, mas trabalho também com computador, com uma música mais atual. Nesse álbum também falo muito sobre ser mulher, tentei colocar minha visão de mulher negra no contexto social do Brasil, sem perder também a veia comercial do trabalho. É um disco de observação natural, que fala de amor, da relação com a natureza, também com um pouco de política no meio.

P. O disco faz referência a uma expressão muito usada ultimamente, o sagrado feminino. O que é o sagrado feminino para você?

R. É essa busca de harmonia entre as coisas da vida. Acho que o sagrado feminino age no lugar de ponderação, de ampliação de consciência na relação com a natureza e com as outras pessoas. Isso é feminilidade, não a feminilidade material, mas aquela que amplifica a possibilidade de expansão do afeto e do carinho. A feminilidade traz isso, independente de gêneros. Acho que por isso o disco não é muito politiqueiro, é só minha maneira de ser. Acho que, mesmo no conflito, temos que agir de maneira não violenta.

P. maternidade é outro tema muito presente no álbum. Você não é mãe, mas foi filha. De que modo a relação com sua mãe e a perda dela se refletem nesse trabalho?

R. Minha mãe me deu um exemplo muito bonito, ela foi uma pessoa simples, filha de marisqueiros, uma costureira da Ilha de Maré, que tinha uma amorosidade muito bonita com todas as pessoas. Ela me ensinou isso, a não estranhar as pessoas de cara, a ter uma fraternidade para com o outro. Ela nunca discriminou nenhum amigo meu, sabia lidar com as diferenças, tinha uma educação nata, apesar de não ter estudado. Tinha esse entendimento da vida. E acho que, independente de ser mãe ou não, a maternidade é esse sentimento de querer bem ao outro. É uma coisa que me comove muito, principalmente ao perceber como o mundo está, com tanto destrato e ignorância.

P. Autêntica conta com nomes como Luedji Luna, Nabyiah Bê e Larissa Luz. Como você vê essas jovens mulheres negras e baianas na música?

R. Essa nova geração de artistas negras tem um posicionamento que vai além do empoderamento, que é uma palavra muito usada hoje. Elas pregam o ser mesmo, o entender que se é. É muito mais mostrar sua essência e suas articulações com outras mulheres do meio cultural. E a gente tem que se auto-admirar, apoiar umas às outras, porque é isso que os homens sempre fizeram. Eles nunca tiveram pudor em apoiar-se uns aos outros. No futebol mesmo, eles são praticamente apaixonados pelos colegas. Temos que fazer o mesmo por nós, mulheres, ainda mais em um país onde, a cada duas horas, uma de nós morre assassinada. Precisamos saber que temos possibilidade de mudar isso, porque somos maioria neste país. Não é revanchismo, é abrir o olho da sociedade para essa injustiça.

P. Você já disse que, como artista, não teve oportunidades iguais na Bahia. Em que sentido?

R. A visão comercial da música da Bahia em um determinado momento era muito centrada em um perfil de artista, e o mercado só se abriu para as músicas das bandas de blocos de carnaval. Então os artistas independentes, os blocos afros, a gente não tinha muita oportunidade. Eu nunca tive grandes blocos, grandes empresários, sempre fui eu investindo em mim mesma. Em certo momento, criei o Selo do Mar e, a partir daí, quando tive minha independência nesse sentido, consegui estabilizar minha carreira.

P. Você ainda se coloca nesse lugar de artista independente?

R. Independência ou morte (gargalhadas). Ser independente não significa que você ainda é iniciante. Eu me autogerencio. Na verdade, de maneira natural, descobri essa coisa do empreendedorismo ao pensar como me manter nesse negócio. Porque é um negócio e, se você perde a noção disso, vira brincadeira. É disso que eu tiro meu pão de cada dia, não posso brincar de fazer música. Foi algo que entendi muito cedo pelos ‘nãos’ que recebi e comecei a ver onde estavam as portas abertas para mim. Fui buscando, inventando, criando.

A cantora Margareth Menezes.
A cantora Margareth Menezes.JOSÉ DE HOLANDA / DIVULGAÇÃO

P. Além da música, você tem a ONG Fábrica Cultural e o Mercado Iaô, em Salvador, que expõe os projetos de mais de 300 artesãos e empreendedores. Por que decidiu ficar e produzir na capital baiana?

R. Tem uma música que Roberto Mendes fez para mim há muitos anos e diz assim: ‘Minha casa é a Bahia, mas o mundo é meu lugar. Eu posso até mudar o mundo, mas não posso me mudar’. É isso aí (risos).

P. Por que, apesar de ter uma carreira reconhecida nacional e internacionalmente, você não tem a visibilidade de outras cantoras baianas, como Claudia Leitte, Ivete Sangalo ou Daniela Mercury? Tem racismo nisso?

R. (Faz uma longa pausa antes de responder). Acho que também tem isso. Não vou dizer que é só racismo, mas ele faz parte dessa realidade em um país como o nosso. Existe também uma diferença de linguagem e de conceito. Minha música tem um conceito a partir do momento em que você coloca a palavra ‘afro’ no meio. Isso já abre o caminho para muitos ‘nãos’. Agora que a gente está conseguindo quebrar algumas barreiras em relação à cultura afrobrasileira. Eu ia dizer que também tem o fato de eu nunca ter participado dos blocos comerciais, mas e as negras que já cantaram em blocos comerciais? Tem grandes cantoras que fizeram isso e não progrediram tanto também, como Márcia Short, as meninas da Banda Mel…

O afropop que eu faço é uma música urbana. Desde os meus primeiros trabalhos pesquisei muito e construí uma sonoridade diferente, que não era o que um cara ia tocar em cima de um trio [elétrico]. Eu sempre tive esse conceito de música, que é mais difícil, comercialmente, do que fazer aquelas músicas mais leves para tocar em rádio no Carnaval. Mas esse tipo de ‘não’ nunca me calou. Eu sempre continuei fazendo minhas coisas.

P. Falando de Carnaval, depois de 32 anos de carreira, o que esse momento do ano representa para você?

R. É importante, porque o Carnaval da Bahia está se tornando cada vez mais uma plataforma para mostrar o trabalho dos artistas. Todos os artistas da música pop, eletrônica, do sertanejo estão lá. Ninguém que queira fazer uma música de apelo popular pode se omitir desse evento, porque ele se tornou um grande festival, uma grande mostra da música popular brasileira. Para mim, como baiana, cantar no trio elétrico é outra escola. A galera que vem agora já pegou essa maneira de cantar já estruturada, mas foi a minha geração que veio, ao vivo, testando para ver como aquilo funcionava. Aí hoje todo mundo sabe que precisa de toda uma equipe médica para sustentar tantos dias de performance, por exemplo, para preservar técnica e energia. É uma nova escola de canto que se formou no Brasil.

P. Nos últimos anos, entre erros e acertos, a moda, a música, a cultura da população negra começou a ganhar mais espaço em revistas, no cinema, em plataformas maisntream. O afro ficou pop?

R. O afro sempre foi pop, porque somos contemporâneos, é uma questão de hoje estar se vendo mais disso. As pessoas estão se conscientizando mais e vendo que existe uma diversidade cultural e religiosa. Por que no Brasil pode existir pop rock e não pode existir afropop? Nós somos o dia a dia, nós somos o agora. É só uma questão de oportunidade, sim, de ter acesso à educação, acesso à saúde, acesso a ferramentas que nos permitam, como sociedade, aproveitar essa criatividade, esse pensamento. Acho que as novas gerações já estão mais abertas a isso, quando você vê o pessoal reverenciando Dona Onete, Odair José, Gilberto Gil.

P. Com tantos projetos em mente, você pensa em parar em algum momento?

R. Gilberto Gil tá com quantos anos, minha filha? A música não para, a gente que, às vezes, se freia, mas ela é uma grande fonte de energia. Gil, [Maria] Bethânia, Ney Matogrosso, Elza Soares são minhas referências pessoais. Ainda tenho coisa para caramba para fazer.