Jürgen Klopp, muito além do futebol

Alemão entra na galeria dos grandes técnicos mundiais após vencer Liga dos Campeões. Para ele, sucesso ou fracasso não podem ser medidos só por números: trabalho mais apaixonante é desenvolver potencial de jogadores.

Por: Gerd Wenzel – DW Brasil

Se ainda faltava alguma coisa para Jürgen Klopp ser colocado na primeira prateleira dos grandes técnicos do futebol mundial, agora não falta mais nada. Depois do triunfo de Madri, o “good german”, como costuma ser chamado pelos habitantes de Liverpool, fará parte da galeria dos treinadores que marcaram como poucos a história dos “Reds”: Bill Shankly, Bob Paisley, Joe Fagan e Rafael Benitez.

Em 2015, ao iniciar o seu trabalho na cidade dos Beatles, numa de suas primeiras coletivas de imprensa, Klopp havia prometido que, mais tardar dentro de quatro anos, venceria um título. Só não especificou qual. Antes de chegar ao lugar mais alto do pódio, porém, encarou alguns insucessos, como, por exemplo, a sina de não conseguir vencer uma final.

Há cerca de quatro anos, quando se transferiu para o Liverpool, já havia perdido três finais com o Borussia Dortmund, fracassos que iriam se repetir com o time inglês, também por três vezes.

Isso sem contar que, na Premiere League propriamente dita, o mais perto que Klopp chegou de colocar a mão na taça foi na temporada encerrada com o vice-campeonato. Faz quase 30 anos que o Liverpool não vence um título da principal competição de futebol da Inglaterra. Será, sem dúvida, o próximo desafio do técnico alemão.

De todo modo, vale lembrar que Jürgen Klopp não está preso à lógica perversa que mede o sucesso de um trabalho pela conquista de um título, qualquer que seja. Talvez por isso, o seu primeiro gesto após o encerramento da final de Madri tenha sido caminhar em direção a Mauricio Pochettino, técnico do Tottenham, para abraçá-lo afetuosamente.  

Logo em seguida, durante inúmeras entrevistas, não se cansava de repetir que “…sucesso ou fracasso não podem ser mensurados tão somente por alguns números…”. Ele considera que o seu trabalho mais apaixonante é desenvolver o potencial dos jogadores e ajuda-los no seu crescimento como profissionais. “Um jogador de um time grande como o Liverpool normalmente atua com 90% a 95% do seu potencial. Cabe a mim conseguir fazer com que entre em campo esbanjando 100%. É isto que muitas vezes vai fazer a diferença”, declarou recentemente.

Outro aspecto muito trabalhado pelo treinador é o fator motivacional baseado em duas colunas mestras: fé e vontade. O capitão Henderson reconhece: “A palavra de Jürgen no vestiário nos leva a inabalável crença que podemos sim, conquistar o que quisermos! Foi assim contra o Barcelona e hoje de novo contra o Tottenham”. 

Antes de entrar em campo para a partida decisiva contra os catalães, Klopp disse ao grupo: “Sejam como leões que não comem há dois meses”. Os jogadores do Barcelona devem ter sentido na própria carne esta fé que move montanhas e a fome irresistível de vencer dos “Reds”.

Klopp ergue a taça de campeão da Liga dos Campeões com o time do Liverpool

E tem ainda o fator empatia. Andando pelas dependências do clube com ele, a gente tem a nítida impressão que Klopp é amigo íntimo de todo mundo, desde o funcionário mais humilde, passando pelos auxiliares dos diversos departamentos até os gestores e executivos.

“Nunca vi nada parecido”, explica o intransponível zagueiro Virgil van Dijk. “Ele sempre nos diz: ‘Vocês não jogam só por vocês mesmos. Vocês jogam por todos aqueles que estão sempre disponíveis para lhes ajudar, por seus companheiros, por seus fãs, pelos funcionários do clube que sempre fazem de tudo para que vocês possam dar o melhor em campo’. Essa mensagem toca fundo o nosso coração”.  

A empatia de Klopp não se restringe apenas ao seu convívio cotidiano com as pessoas, seja no trabalho ou no seu ambiente privativo rodeado por familiares e amigos. Abrange também o coletivo, fazendo com que frequentemente se manifeste sobre questões políticas e problemas sociais.

Ao jornal El País Jürgen Klopp deixou claro que, como cristão protestante, é movido por um poderoso sentido comunitário de solidariedade. 

Em novembro do ano passado, por exemplo, na partida contra o Estrela Vermelha em Belgrado, Klopp colou na sua jaqueta um button com a flor fênix, símbolo da Sérvia, em homenagem a 1,2 milhão de sérvios mortos pelos exércitos austro-húngaro e alemão durante a Primeira Guerra Mundial. Na época, a matança aniquilou quase 30% da população do pequeno país.

No livro Klopp bring the noise, do jornalista Raphael Honigstein, as palavras do técnico sobre o seu posicionamento político e social não poderiam ser mais claras: “Eu sou de esquerda, naturalmente. É melhor ser de esquerda do que de centro. Eu acredito no Estado de bem-estar social. Não tenho plano de saúde privado. Jamais votaria num partido que promete baixar os impostos. Assim como eu vivo bem, quero que os outros também vivam bem. Se existe alguma coisa que jamais faria na minha vida, é votar na direita”. 

Sobre a preservação do meio-ambiente, em entrevista ao Westdeutsche Zeitung, disse: “Creio que nossa missão é fazer com que nosso minúsculo pedaço de terra seja um pouco mais bonito. A vida consiste em fazer com que os lugares por onde passamos sejam melhores”. No que diz respeito à cidade de Liverpool, os seus habitantes, especialmente depois da conquista da “Orelhuda”, certamente concordarão com ele.