Independente, Virada Contracultural levou a resistência para o centro de São Paulo

Por: Alam Moura

No ultimo final de semana aconteceu a já tradicional Virada Cultural em toda a cidade de São Paulo, o evento que vem recebendo inúmeras críticas nas últimas edições não apenas pela presença de artistas já consagrados e seus altos valores cobrados, mas também pela falta de espaço para os artistas independentes, na edição de 2019 não foi diferente. Apesar de muitas atrações espalhadas pela cidade, a maioria do público se concentrava nos palcos com os artistas mais famosos, mas na região da Luz, mais precisamente no Teatro de Container, um movimento contrário estava acontecendo. A Virada Contracultural.

O evento que ocorreu durante quase todo o domingo, recebeu inúmeros artistas, expositores e mostrou que mesmo sem apoio e suporte é possível se organizar, ainda que com dificuldades, mas sempre resistindo em respeito a cultura.

O Proseador esteve presente no evento e conversou com músicos e organizadores para entender um pouco a essência da Virada Contracultural em um dia tão simbólico para a cultura em São Paulo.

Indo na contramão da Virada Cultural a “Contra Virada” trouxe uma variedade de bandas e artistas, entre eles Branco Leo, cantor e compositor que deu ao palco o toque de diversidade com seu Samba Caipira, e conseguiu cumprir bem o papel como ele mesmo disse, ao lado de grandes bandas: “Eu achei o evento maravilhoso, pois eu estava numa expectativa muito grande de como seria minha participação ao lado de grandes bandas, é um evento que mexe com um movimento muito grande, no Teatro do Container que é um lugar que a gente tem que respeitar. Eu fiquei muito contente com minha a apresentação e principalmente com a aceitação do público com meu Samba Caipira”

Branco Leo levou para a virada o seu Samba Caipira

Levando a voz das ruas para os palcos, o poeta Vulgo Mini falou do papel da arte e como ela pode ser importante em um momento de desmonte na educação em todas as esferas: “A gente vem apoiando o evento contribuindo com o nosso trabalho, o meu trabalho objetivamente é através da poesia marginal e a gente veio mostrar a nossa cara, apoiar o evento e através da poesia denunciar esse governo que está tirando 30% da educação, a gente não está conformado com esse lance, em um país que já não investe na educação e o pouco que tem o cara ainda tira. Então a poesia marginal está nos circuitos de Slamns dentro de São Paulo, na zona leste e centro, a gente está ai dando a cara a tapa e também levantando a nossa bandeira de protesto e fazendo com que as cabeças sejam mais abertas para acolher esse trabalho da poesia marginal em São Paulo”


O poeta Vulgo Mini, poesia e resistência

Segundo Eduardo de Febo, escritor e um dos organizadores, a ideia do evento surgiu no ano passado, e mesmo com a falta de apoio resolveram não desistir da ideia, criando assim a Virada Contracultural:

“A ideia surgiu no ano passado que nos tivessemos um palco homenageando 30 anos sem Raul seixas e o Movimento Estadual da População Rua, por uma série de motivos não conseguimos apoio, então resolvemos fazer aqui no Teatro do Container, que também é um lugar de resistência. Conseguimos alguns apoiadores, o CC Rider, que é um bar da Mooca, o Marum  gentilmente nos ajudou e o seu Robson que é do  Movimento Estadual da População em Situação de Rua de Estado de São Paulo, a ideia foi fazer um palco diverso, com várias tendências , nós tivemos Blues, Samba, Heavy Metal, Punk, e quem vai fechar é o Puto’s BRtohers  com Sylvio Passos, além dos expositores, como Sustex Modas que trabalham com retalhos e são moradores de rua que estão saindo da situação de vulnerabilidade e costureiras trans, temos também o Ensaboa (Saboaria Artesanal), o pessoal do Recanto do Guerreiro, enfim, juntamos varias pessoas para fazer essa articulação”

 Nome conhecido na cena underground e responsável por toda comunicação da Virada Contracultural, Marcello Kaskadura não poupou palavras ao falar do descaso da Prefeitura e as dificuldades em realizar o evento, ao mesmo tempo que exalta com orgulho conseguir seguir a velha máxima do “faça você mesmo”;

“A verdade é que tomamos vários tocos da Secretaria de Cultura, dessa Prefeitura porcaria, nós fizemos isso na unha e tivemos que arrumar dinheiro de maneira particular. Nós juntamos aqui uma ideia para colocar todos os expositores possíveis, gratuitamente e também todas as bandas de todos os estilos, da MPB, Samba, Death Metal , Punks, todos tocando no mesmo lugar. E nos temos que lembrar que estamos na Estação na Luz, na Cracolândia, fazendo isso juntos com o Movimento dos Moradores de Rua, do seu Robson. Eu quero deixar bem claro que não tivemos apoio nenhum, de nenhum governante, vereador ou porra de deputado, ninguém chegou junto, estamos fazendo na unha essa porra, nós não aceitamos e não vamos passar pano pra essa raça do caralho”

Para Kakadura, as pessoas entenderam a mensagem da Virada Contracultural mas se mostra cético quanto aos interesses do estado no que diz respeito à Cultura: “Desde o princípio da madrugada, da montagem do palco e no decorrer do evento está tudo perfeito, porque as pessoas entenderam o propósito da coisa, e que fique uma mensagem, uma semente, não dependam de nada de governo e de prefeitura, eles não ligam para nós , é uma secretaria de cultura que odeia cultura. Então, “faça você mesmo” aquela ideia lá atrás, do Punk dos anos 70, faça você mesmo, dá certo, é trabalhoso, mas funciona. O meu orgulho de ver as coisas rolarem do Rap ao Samba, do Death Metal ao Punk e isso já me deixa muito feliz e foda-se Bolsonaro”