Holocausto Brasileiro: Descaso, omissão e a morte de 60 mil pessoas

Por: Ana Lúcia

O livro “Holocausto Brasileiro” da jornalista Daniela Arbex, relata o maior genocídio ocorrido no Brasil nas décadas de 1960 á 1980. O Hospital Psiquiátrico Colônia localizado em Barbacena, Minas Gerais, abrigou milhares de pessoas portadoras de distúrbios mentais, dentre esses mulheres e crianças de todas as idades e etnias.

“Trem de doidos”, assim era chamado o transporte que todas as manhãs carregava em seus vagões novos pacientes. Ali haviam pessoas que nem ao menos tinham diagnósticos de suas “loucuras”, como: Homossexuais, prostitutas, mendigos, pessoas sem documentos, mulheres que haviam sido estupradas, e opositores políticos, entre outros grupos que eram marginalizados pela sociedade.

Ao chegarem no Colônia tudo era confiscado; documentos, roupas e sapatos, os homens tinham suas cabeças raspadas, eram também uniformizados com um macacão azul. Após esse procedimento os pacientes davam entrada no hospital podendo permanecer ali o resto de suas vidas.

Com recursos quase nulos, os pacientes do Colônia enfrentavam a escassez de comida tendo muitas vezes que se alimentar de ratos para sobreviver, como a água potável quase não existia, o único jeito de não morrer de sede era bebendo a água dos esgotos a céu aberto que ficavam nos pátios, o uso do ECT (eletroconvulsoterapia), o famoso eletrochoque também era usado como punição á aqueles que ousavam em sair da linha, esses são alguns de muitos dos tratamentos desumanos que os pacientes recebiam no hospital.

Internados eram obrigados a ficar no pátio das 5h às 19h, sem fazer nada

Com capacidade de 200 leitos o Colônia abrigava pouco mais de 5 mil pessoas, e para tentar suprir a necessidade de todos a direção do hospital decidiu trocar as camas por colchões preenchidos com feno que tinham um custo benefício mais baixo. Mas eram tantos pacientes que os colchões não deram conta, então os que não tinham onde dormir eram colocados no pátio até o amanhecer. Em noites de inverno muitos eram deixados sem nenhum tipo de roupa, totalmente nus, outros ainda tinham o “privilégio” de ter um pano tapando as partes intimas, e para não morrerem de frio se amontoavam no centro do pátio revezando os lugares para que todos recebam um pouco do calor humano, porém, muitos não aguentavam. Com a saúde já debilitada e ainda largados á mercê da própria sorte era comum encontrar pela manhã alguns pacientes mortos. Como haviam muitos corpos e pouco lugar para desovar e até mesmo para enterrar, o hospital começou a comercializa-los nas faculdades de medicina.

Em meados da década de 1970, na Europa, mais especificamente na França, Franco Basaglia iniciava um movimento antimanicomial. No Brasil, na mesma época, profissionais da saúde mental e familiares dos pacientes com transtornos mentais mobilizaram-se para o assunto. Em 1989 com o fechamento de uma clinica em Santos/SP, e uma revisão legislativa proposta pelo então deputado de Minas Gerais, Paulo Delgado, foram os pivôs que impulsionaram a Reforma Psiquiátrica Brasileira.

Após uma luta árdua de 12 anos, a lei 10.216 que prevê um tratamento mais humanizado e fora dos manicômios, com acompanhamento pelo CAPS (centro de atenção psicossocial) inserindo essas pessoas no mercado de trabalho e no convívio social, foi promulgada, no dia 6 de Abril de 2001. Contudo esse ano o ministério da saúde divulgou em fevereiro uma nota técnica prevendo voltar com a inclusão de Hospitais Psiquiátricos nas redes de Atenção Psicossocial, incentivo ao uso do ECT (eletroconvulsoterapia), internação de crianças e adolescentes e o uso da Abstinência no tratamento contra as drogas. Aprovar algum desses projetos seria um total desrespeito não só com as 60 mil vitimas que o Hospital colônia deixou, mas com quem não tem nem a chance de se defender.