Personagens e Lutas da História Brasileira – Graciliano Ramos

Após todas as convulsões sociais que temos no país nos últimos tempos, achamos necessário relembrar a vida de grandes personagens da história brasileira, que se encontravam no campo da esquerda ou que participaram ativamente das lutas sociais do povo brasileiro, para trazer a tona as suas contribuições para o desenvolvimento nacional, independente da área de atuação, e independente de suas correntes políticas no campo da esquerda. Portanto passarão por aqui anarquistas, comunistas, socialistas e etc.

E por que está iniciativa? Porque nos últimos tempos percebemos que se está criando no país um clima de “caça as bruxas”, de um anticomunismo burro, que joga dentro do mesmo barco todos das diversas correntes da esquerda,  nomeando a todos de petralhas. Muitos, inclusive, chegam até a afirmar que a ditadura matou foi pouco e que deveria ter matado todos os “comunistas” (que para essas pessoas é qualquer individuo ou organização de esquerda). É só nos relembramos das diversas faixas nas manifestações pró-impeachment no inicio do ano e agora do clima que se estabelece pelo país.

Queremos também recordar as diversas lutas do povo brasileiro, porque sempre na nossa história as elites tentaram criar uma narrativa de que somos um povo pacífico, de que aceitamos tudo passivamente, quando a história brasileira mostra exatamente o contrário, que somos um povo de luta, que conseguiu diversas conquistas através de batalhas heroicas.

Por isso queremos relembrar que muito do que foi criado nesse país passou por mãos de pessoas de esquerda e que muitas das vitórias do povo brasileiro foram conquistadas através de grandes lutas sociais.

Por isso aqui nesse espaço vamos trazer pequenas biografias de militantes históricos da esquerda brasileira (lembrando principalmente os aspectos de suas vidas políticas) e relembrar diversas lutas do povo brasileiro que garantiram direitos e avanços sociais. Pois muitos desses, tanto militantes, quanto eventos históricos, estão esquecidos, propositalmente pela história oficial.

Para inaugurar essa coluna trazemos a história do escritor Graciliano Ramos, autor de clássicos da literatura brasileira, como São Bernardo, Caetés, Angústia e Vidas Secas, e militante comunista.

 

Graciliano Ramos

“A literatura é revolucionária em essência, e não pelo estilo do panfleto”Graciliano Ramos

Muitos não sabem, mas Graciliano Ramos autor de Vidas Secas, Caetés, São Bernardo, Angústia, Infância,  entre outros livros era um militante comunista.

Graciliano Ramos nasceu no dia 27 de outubro de 1892, na cidade de Quebrangulo, sertão de Alagoas, filho primogênito de dezesseis irmãos, seus pais eram Sebastião Ramos de Oliveira e Maria Amélia Ferro Ramos. Durante sua infância Graciliano morou em diversas cidades do sertão nordestino e desde pequeno demonstrou predileção pelas letras e a partir dos doze anos de idade passou a se envolver com a publicação de jornais e sonetos.

Em 1933 Graciliano lança seu primeiro livro, Caetés, que vinha escrevendo desde 1925, e em 1934 lança o livro São Bernardo.

Em 1936 é preso durante a ditadura Vargas por ter “ideias subversivas” já que o conteúdo da sua obra era marcado por um forte teor de crítica social, apesar de na época Graciliano não ser militante do PCB e não ser um marxista declarado. Assim cai nas garras da repressão na esteira da perseguição que explodiu no país depois da Insurreição Comunista em 1935. Durante os dois anos da sua prisão o velho Graça não entende o por que da sua prisão já que era em suas palavras apenas “um pacato homem do interior, metido a escritor” e não tinha realizado nenhum ato transgressor ou se envolvido com o PCB. Porém durante a prisão se aproxima dos coletivos de comunistas que se formaram pelas prisões em que passou, essa experiência ficou gravada no seu livro publicado postumamente Memórias do Cárcere , esse contato com os comunistas nos presídios aproximou Graciliano do partido. E após a pressão de artistas como Jorge Amado, José Lins do Rego e outros mais, Graciliano é solto em janeiro de 1937, sem provas que o ligassem a Insurreição de 1935.

Graciliano Ramos - Vidas Secas
Vidas Secas – Uma das principais obras de Graciliano Ramos

Em agosto de 1937 Graciliano lança sua obra Angústia, e por este trabalho ganha o prêmio “Lima Barreto” da Revista Acadêmica .

E em 1938 lança seu trabalho mais celebre, Vidas Secas. Graciliano iniciou esse trabalho cem dias após ser libertado da prisão da ditadura varguista. Ele escreveu um conto baseado no sacrifico de um cachorro que presenciara quando criança no sertão (capitulo do sacrifico da cachorra Baleia), por conta da boa recepção resolveu desenvolver a história.

Em 1942 lança em parceria com Jorge Amado, Jose Lins do Rego, Anibal Machado e Raquel de Queiroz, Brandão Entre o Mar e o Amor.  Em 1944 lança o livro infantil Histórias de Alexandre.

Em 18 de agosto de 1945 ocorre a filiação formal de Graciliano ao PCB, durante um dos pouquíssimos períodos em que o partido esteve legalizado no país. Durante o ano de 1945 são lançados também seus livros Dois Dedos e Infância (livro de memórias).

Durante um período da sua militância, Graciliano atuou na célula Theodore Dreisser (nome em homenagem a um escritor norte-americano) em que levanta uma proposta muito interessante, a sua ideia era a “de utilizar a organização partidária, sobretudo a célula Theodore Dreiser, para descobrir talentosos escritores no interior do país, pois considerava que a literatura não deveria permanecer circunscrita a uma classe social. Propunha que o partido, por meio do sistema de células partidárias ramificadas por todos os estados, recolhesse páginas escritas por estudantes, operários, comerciantes, marinheiros, enfim por aqueles que tivessem talento. O material coletado deveria ser encaminhado para célula Theodore Dreisser que, ao localizar um possível talento, se encarregaria de prepara-lo com cursos para lança-lo à carreira literária” [1]

Durante o anos de 1947 auxilia a campanha a vereador do comunista Astrojildo Pereira no Rio de Janeiro. Em 1947 também lança o livro de contos Insônia. Em 1951 é eleito presidente da Associação Brasileira de Escritores, sendo reeleito em 1952. Em abril deste mesmo ano vai a Tcheco-Eslováquia e a Rússia, dessa viagem surge o livro Viagem em que relata suas impressões sobre o leste europeu, esse livro também é lançado postumamente, em 1954.

Graciliano Ramos morreu em janeiro de 1953.
Fecho com esse relato de uma conversa do velho Graça com o dono de um dos jornais em que trabalhou.
“Paulo Bittencourt gostava de provocar Graciliano por suas ideias socialistas. Quando o Correio da Manhã recebeu novas máquinas, Paulo o alfinetaria:

– Imagine se vocês fizessem uma revolução e vencessem. Todo esse parque gráfico seria destruído.

Graciliano o cortaria:

– Só um burro ou um louco poderia pensar isto. Se fizéssemos a revolução e vencêssemos, só ia acontecer uma coisa. Em vez de você andar por aí, viajando pela Europa, gastando dinheiro com mulheres, teria que ficar sentadinho no seu canto trabalhando como todos nós”. [2]

Por: Max Marianek

 

 

 

[1] SOTANA, Edvaldo Correa. A militância Comunista do Escritor Graciliano Ramos. In: Revista Espaço Acadêmico , N°61, Junho,2006.  Site: http://www.espacoacademico.com.br/061/61sotana.htm

[2] MOTA, Uraniano.  Graciliano Ramos, um escritor comunista. Site: http://www.vermelho.org.br/noticia/197435-1

 

 

 

 

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