Fechamento da Ford em São Bernardo do Campo, onde já foi o centro político do país

Por: Alam Moura

O anúncio do fechamento da Ford de São Bernardo do Campo é muito mais do que uma crise economia, prejuízo, ou insegurança jurídica, a saída da montadora do mercado de caminhões no Brasil e na América do Sul, vai gerar um efeito cascata ainda difícil de mensurar. Além de mais de 3000 mil funcionários afetados diretamente, é bem provável que distribuidores e fornecedores da fábrica de São Bernardo (SP) quebrem nós próximos meses, isso porque as demais empresas do setor não terão condições de substituir a demanda que vinha da montadora.

Segundo o Diese (Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos), o fim das atividades da fábrica deve impactar uma cadeia com 24 mil trabalhadores. A atitude da montadora é um golpe duro nas políticas ultraliberais do Ministro da Economia Paulo Guedes, pois ao contrário do que fez a General Motors, a Ford não ameaçou nem tentou negociar benesses tributárias com os governos estadual ou federal.  Em um momento de extrema desconfiança e crise no planalto, tudo que o governo não precisava era ver uma gigante montadora fechar suas portas, pegando todos de surpresa.

 

O fechamento da fabrica de São Bernardo do Campo marca o esvaziamento da região do ABC que se tornou um símbolo das lutas pela democracia, mas será difícil apagar da história o que representou a região, quando em 13 de Março de 1979, 200 mil trabalhadores cruzaram os braços, Metalúrgicos de São Bernardo, Diadema, Santo André e São Caetano deflagram a primeira greve geral de uma categoria no país desde a paralisação de Contagem (MG), em 1968.

A greve geral de 1979 mostrou o rápido avanço da organização dos trabalhadores, que mais uma vez desafiaram a ditadura e dobraram os patrões. Cerca de 200 mil trabalhadores participaram do movimento, que paralisou a produção das indústrias automobilísticas (adesão total na Volks, Ford, Mercedes-Benz e Scania) e de autopeças e de outras grandes empresas da região. Pela primeira fez foi organizado um fundo de greve. Os trabalhadores receberam apoio da igreja católica, de entidades civis, do MDB e de artistas famosos. São Bernardo do Campo tornou-se o centro político do país.

A região ficou nacionalmente conhecida em 1978, quando eclodiu a primeira greve dos metalúrgicos, sob o comando de Luiz Inácio Lula da Silva. O anúncio do fechamento da fábrica vai muito além de uma crise econômica, é reflexo de um país sem rumo e sob um Governo sem a menor representatividade para com o povo e incapaz e tomar uma única atitude que seja benéfica aos trabalhadores. Mais uma vez é o pobre quem vai pagar o preço por conta de uma política ultraliberal que só vai beneficiar os poderosos.