Em 1991, Prost ameaçou jogar Senna “para fora” depois de disputa em Hockenheim

Francês passou reto na chicane na briga pelo quarto lugar e culpou brasileiro, que respondeu: “Ele reclama de tudo”; na prova seguinte, os dois apertaram as mãos e deram trégua

Fonte: Globo Esporte

O histórico de confusões, tretas, acidentes, discussões, ou qualquer coisa nesse sentido, entre Ayrton Senna e Alain Prost caberia não num, mas em dezenas de posts aqui no F1 Memória. Mas dessa vez vamos abordar um episódio nem tão conhecido assim entre os dois. Foi no GP da Alemanha de 1991, em Hockenheim. O normalmente frio “Professor” Prost até ameaçou colocar Senna “para fora” num eventual encontro seguinte!

Senna e Prost pouco antes de incidente no GP da Alemanha de 1991 — Foto: Getty Images
Senna e Prost pouco antes de incidente no GP da Alemanha de 1991 — Foto: Getty Images

Após vencer as quatro primeiras corridas de 1991, Ayrton Senna viu uma escalada fulminante da Williams com Nigel Mansell, que venceu as corridas de França e Inglaterra. Nessas provas, o brasileiro teve problemas de consumo de gasolina, com leituras erradas do computador de bordo. Em Magny-Cours, o painel acusava negativo, mas Senna chegou em terceiro. Em Silverstone, o mostrador indicava combustível suficiente, mas Ayrton perdeu o segundo lugar na última volta por pane seca. A diferença de Senna para Mansell na tabela era de 18 pontos quando a F1 chegou à Alemanha.

Já Prost vinha na sua pior temporada desde o ano de estreia, em 1980. A evolução do carro da Ferrari de 1990 decepcionou, e a equipe estreou um novo modelo no meio do campeonato, algo incomum. Na França, o então tricampeão chegou a liderar, mas foi ultrapassado por Mansell e acabou em segundo. Na Inglaterra, o francês levou um passão daqueles do companheiro Jean Alesi, mas anda ficou em terceiro. De qualquer forma, assim como Senna, Prost precisava muito de um bom resultado na Alemanha, já que as pressões na Ferrari eram, como sempre, enormes.

Senna à frente de Prost durante o GP da Alemanha de 1991 — Foto: Reprodução/rede social
Senna à frente de Prost durante o GP da Alemanha de 1991 — Foto: Reprodução/rede social

Na classificação, Senna chegou a brigar pela pole com Mansell, mas teve de se conformar com o segundo lugar, enquanto Prost foi um distante quinto colocado, a quase dois segundos da Williams. Na corrida, Ayrton largou mal e caiu para terceiro, atrás do companheiro Gerhard Berger, enquanto Prost passou Riccardo Patrese (Williams) e subiu para quarto.

Como nos tempos em que os dois corriam juntos pela McLaren, os velhos rivais andaram a prova toda grudados. Quando Berger fez uma péssima troca de pneus, eles ficaram em segundo e terceiro lugares, atrás de Mansell. Também entraram juntos nos boxes, e Senna manteve-se à frente. Mas os dois foram ultrapassados por Patrese e ainda viram Jean Alesi partir para uma tática de não trocar pneus.

Senna e Prost tiveram entrevero depois do GP da Alemanha de 1991 — Foto: Reprodução/rede social
Senna e Prost tiveram entrevero depois do GP da Alemanha de 1991 — Foto: Reprodução/rede social

Portanto, um duelo que poderia ser pelo segundo lugar, acabou sendo pelo quarto. O carro de Senna não rendia bem, e Prost pressionava. Mas o francês nunca primou por ser decidido nas ultrapassagens, e, com isso, o brasileiro ia se defendendo relativamente bem. Mas na volta 38 de 45, o Professor cerrou os dentes, pegou o vácuo e colocou por fora na aproximação para a primeira chicane.

Como de costume, Ayrton defendeu a posição no limite, deixando um mínimo espaço para Prost. Este, então, se atrapalhou no ponto de freada e passou reto na chicane. Parou a Ferrari diante de um cone usado para evitar que os pilotos cortassem a variante, mas o carro morreu. Fim de prova para o francês. Ironicamente, Senna pararia ali mesmo na última volta, sem gasolina de novo.

Alain Prost ficou furioso após abandonar GP da Alemanha de 1991 — Foto: Getty Images
Alain Prost ficou furioso após abandonar GP da Alemanha de 1991 — Foto: Getty Images

Pior para Senna foi a vitória de Mansell, que reduziu perigosamente a desvantagem na ponta da tabela para apenas oito pontos. Isso dava a perspectiva matemática de o Leão assumir a liderança do campeonato dali a duas semanas, na Hungria, caso vencesse, e o brasileiro ficasse do quinto lugar para trás. Mas é claro que o assunto depois da corrida foi mais uma confusão entre Senna e Prost. O francês, fugindo das suas características, subiu o tom nas declarações:

– Se eu voltar a encontrá-lo na mesma situação, o jogarei para fora da pista. Com certeza. Não aceito que a Fisa (então órgão esportivo da Federação Internacional de Automobilismo) multe em 10 mil dólares (Maurício) Gugelmin e (Aguri) Suzuki em Magny-Cours ou Silverstone, mas nunca faça nada com os outros pilotos. As regras devem ser iguais para todos.

Ayrton Senna ironizou críticas de Alain Prost em Hockenheim-1991 — Foto: Getty Images
Ayrton Senna ironizou críticas de Alain Prost em Hockenheim-1991 — Foto: Getty Images

– Aff… Todos conhecem o Prost. Sempre reclama do carro, ou dos pneus, ou do time, ou dos mecânicos, ou da gasolina, dos outros pilotos, do circuito, sempre culpa alguém, nunca é seu erro. Ainda não vi a imagem, mas mas deve estar claro que ele passou do ponto na freada, arriscou muito e poderia ter causado um acidente. Felizmente não batemos, mas ele quase causou um acidente – rebateu Senna.

Não houve punição, e duas semanas depois, na Hungria, ambos conversaram e “fizeram as pazes”. Juntos, os dois falaram para os jornalistas.

– Para o bem do esporte, de todos e do esporte, devemos buscar uma melhor forma de competir e trabalhar no mesmo ambiente, e concordamos nesse ponto – disse Senna.

De fato, naquele campeonato, quando os dois se cruzaram de novo na pista, em Monza, Senna passou Prost com facilidade na briga pelo segundo lugar. Demitido pela Ferrari no fim de 1991, o francês tirou um ano sabático e voltou em 1993 para ser tetracampeão pela Williams. Mas teve em Ayrton uma carne de pescoço no que, para muitos, foi o melhor ano do brasileiro na F1. Inesquecível.