Coronavírus, Carnaval e o preconceito cultural

Por: Alam Moura

É um fato que o Coronavírus é a preocupação global da vez, e assim deve ser, após o surto e mortes na China e casos de suspeita de contaminação confirmados em alguns lugares do mundo, inclusive no Brasil.

Governos de vários lugares junto com a OMS (Organização Mundial da Saúde) declarou emergência internacional e a partir de agora todo cuidado terá que ser redobrado. Mas como estamos era dos memes em que tudo acaba virando motivo de piada, mesmo que, como neste no caso, esteja envolvido a morte de pessoas e a dor de muitas famílias, o Coronavírus se tornou o principal personagem dos memes e o Brasil mais uma vez não ficou de fora dessa onda mórbida que assombra o mundo moderno e principalmente a era digital.

Como de costume em terras tupiniquins, temos o diferencial de adaptar e dar uma amplitude diferente de tudo que é importado, principalmente, quando por coincidência, o surto do vírus se espalhe justamente próximo ao carnaval.

Não é segredo para ninguém que mesmo sendo a festa mais popular do país, o carnaval não é e nunca foi uma unanimidade, e até aí não existe nenhum problema, faz parte do livre arbítrio e ninguém recebe uma intimação para pular carnaval e cair na folia. Acontece que acompanhado desse repúdio vem o preconceito, que nesse caso ultrapassa o musical, e é também cultural, social, e é claro, racial.

Nós últimos dias, acompanhando os memes engraçadinhos (para alguns), o que chamou a atenção e não por acaso foi o que mais viralizou, foi uma paródia do cavalo de Tróia, onde o mesmo representa o carnaval e dentro dele está o Coronavírus que seria entregue a população.

A princípio esse meme pode ser encarado como apenas mais uma entre tantas piadas sem o mínimo de graça e bom senso que estão circulando por aí, mas o buraco é muito mais embaixo. Não precisa de muito esforço e com o mínimo de pesquisa nas redes sociais percebe-se que essa ação vai muito além de uma “brincadeira”. Comentários responsabilizando o Carnaval por uma possível epidemia, ou até mesmo conservadores pregando a suspensão da “festa do pecado” são fáceis de encontrar, e existem até aqueles que acham que o vírus é um castigo divino, o que não seria difícil de imaginar pessoas do alto escalão do governo usando isso de pretexto para justificar aberrações, como a abstinência sexual.

Não é exagero acreditar que se o vírus se espalhar por aqui (o que obviamente todos estamos torcendo para não acontecer) as pessoas sejam tratadas com o mesmo preconceito e ódio que os soropositivos sofreram nos anos oitenta.

O que todos nós queremos e estamos torcendo é que esse vírus seja controlado o mais rápido possível e sim com ajuda da ciência, a única que realmente pode nos salvar, mas não podemos aceitar que um assunto tão grave seja um gatilho para potencializar o preconceito e o ódio que já anda tão em alta por aqui.

O carnaval está chegando e todos os cuidados devem ser tomados, tanto em relação ao Corinavírus quanto a qualquer outro, afinal mesmo que tentem elitizar, o carnaval ainda é a festa do povo, está na raiz da nossa gente, e apesar de ser a vontade de muitos, principalmente do atual governo, a cultura popular não se apaga com uma canetada.