Como conviver com tanta dor?

O importante, na verdade, é refletir sobre uma triste, covarde e inexplicável omissão da sociedade brasileira. Como ela consegue conviver com essa carga emocional e psicológica insustentável de mais de mil mortes por dia, sabidamente de responsabilidade de um governo que não cuidou de seus cidadãos numa das maiores tragédias sanitárias de todos os tempos? Vidas perdidas, sonhos desfeitos, famílias enlutadas… Isso é crime

Fonte: Ultrajano – POR LUIZ ANTONIO DO NASCIMENTO

1.186, 1.242, 1.120, 1.379, 1.115, 1.171… Os números de mortes pela Covid-19, anunciados diariamente na semana passada, são assustadores. Batemos a marca de 200 mil vidas perdidas, e na edição de sexta-feira o Jornal Nacional estampou aquela arte ilustrativa que mostra a disseminação da doença pelo Brasil ‒ pela primeira vez, nesta pandemia, o Brasil apareceu tingido de vermelho e amarelo; nenhum Estado, um único Estado, na cor azul, aquela que indica queda no número de casos e mortes. O mapa se manteve assim nos dias seguintes. Ou seja: a pandemia caminha a passos largos enquanto o governo se movimenta como uma tartaruga preguiçosa ‒ ou uma preguiça criminosa –, desdenhando da doença e atacando a imprensa por divulgar o avanço galopante da pandemia – no tom mais educado de seu linguajar, o déspota empedernido taxou a mídia de mau caráter e chamou William Bonner, âncora e editor-chefe do JN, de canalha.  

Tudo já foi dito a respeito desse idiota que comanda o país ‒ um incompetente, irresponsável, ignorante, prepotente, autoritário, arrogante, que não encomendou vacinas no tempo certo, deixando o Brasil no fim da fila. O infeliz, que falava em gripezinha e preferia vender a ineficaz cloroquina como solução milagrosa, vetou a compra de seringas e outros insumos porque “estavam caros demais”. Ora, estúpido, tire alguns milhões de reais do rico orçamento destinado ao Exército. Disse que o país estava quebrado e ele não podia fazer nada – pode, cara-pálida, pede para sair ‒ e se recusou a negociar com os laboratórios porque “eles é que têm todo interesse em vender o produto” – esse é o mais infame dos argumentos para não procurar a indústria farmacêutica ‒ quanto vale uma vida, desgraçado?. E é confessadamente contra a vacina, afirmando que metade da população brasileira está com ele, não vai se vacinar – quanta parvoíce.  

Importa, é lógico que importa, a série de desatinos por ele cometida. Mas nem é mais o caso de falarmos dela e da incompetência de um Ministério da Saúde tomado por militares que não entendem – nem nunca procuraram entender ‒ de saúde pública. O importante, na verdade, é refletir sobre uma triste, covarde e inexplicável omissão da sociedade brasileira. Como ela consegue conviver com essa carga emocional e psicológica insustentável de mais de mil mortes por dia, sabidamente de responsabilidade de um governo que não cuidou de seus cidadãos numa das maiores tragédias sanitárias de todos os tempos? Vidas perdidas, sonhos desfeitos, famílias enlutadas… Isso é crime. E não se pode admitir esse tipo de atitude por parte de um governante de um país que se diz democrático e alardeia a falácia de que todas as instituições estão funcionando. Estão? Ou mantém-se num silêncio cúmplice?

Nobres senadores, senhores deputados, o que os senhores têm feito para conter o instinto assassino desse descontrolado abominável? Rodrigo Maia, só agora, às vésperas de deixar a presidência da Câmara, diz o que pensa de Bolsonaro – “um covarde”. Mais de 50 pedidos de impeachment, porém, foram apresentados e por ele engavetados. Por qual razão? Por medo de que seriam rejeitados no plenário por influência dos apaniguados do Planalto que trocam votos por verbas e cargos? Ora, excelências, só o fato de se discutir o assunto seria suficiente para acordar a sociedade de seu sono letárgico e – uma hipótese – convocar uma junta médica para avaliar o tresloucado.

Sim, uma equipe de psiquiatras, porque, além da personalidade cruel, só mesmo um grave transtorno mental justificaria atitudes tão desumanas e desastradas. Trata-se de um psicopata? De um sociopata? A revista Crusoé trouxe esta pergunta estampada na capa: “Ele está louco?” Psiquiatras, psicanalistas e psicoterapeutas trataram de discutir o assunto. Mas quem precisa de especialista para traçar o perfil psiquiátrico de um homem maquiavélico que aprecia a tortura, ameaça mandar pólvora nos americanos, nega a pandemia, vê comunistas por toda parte, mente, compactua com a morte e manipula as pessoas? Tal homem precisa ser interditado, colocado numa camisa de força e levado para tratamento. Ou internado para sempre. Urgentemente.

Nobres ministros do STF, eminências togadas, repito a pergunta feita a senadores e deputados: o que vossas excelências têm feito para conter o instinto assassino desse descontrolado abominável? São inúmeros os inquéritos abertos na Justiça para julgar o comportamento desse patético presidente. Ora por desacato ao próprio STF, ora por apoio às manifestações antidemocráticas que pediram o fechamento da corte e do Congresso, também por interferir no comando da Polícia Federal para proteger parentes e amigos e até por disseminar fake news nas redes sociais antes e depois da posse. Por que tanta demora nas investigações, como no caso das “rachadinhas” do filho 01 e na resposta à pergunta que já dura quase três anos: quem mandou matar a vereadora Marielle Franco?

Claro, temos nossa parcela de culpa. Dizem as pesquisas que 30% da população ainda se ilude com ele. Essas pessoas seguem, como gado obediente, o pensamento daquele que consideram um mito – insistem em não cumprir as orientações das autoridades de saúde (as verdadeiras), não usam máscara e lotam praias e bares como se nada houvesse. O problema é que elas arrastam, com sua ignorância cega e criminosa, todo o restante da população para um futuro incerto, cada vez mais sombrio. Quantos dramas próximos já não vivemos por causa desses irresponsáveis? Quantos viveremos ainda?

Enquanto isso, o desvairado ri e anuncia abertamente um novo atentado à democracia – como o incitado por Trump nos Estados Unidos. Seguidor do magnata que pode ser chutado da Casa Branca antes do fim do mandato, Bolsonaro relevou a invasão ao Capitólio, insistindo na teoria da fraude nas eleições de lá. E disse que vai acontecer até coisa pior por aqui se não for adotado o voto impresso ano que vem. Já deve estar preparando os chifres, a pele de urso e a tinta para pintar a cara de louco e invadir o Congresso. O cabelinho já está adequado.

Sei que é como chover no molhado. Tem sido recorrente falar da inépcia e da incúria desse presidente que tanto mal faz a nosso pobre país. Mas não custa lembrar: no século passado, um outro louco tão sectário, prepotente e inconsequente, com pensamentos bem similares ao dele, arrastou milhões de pessoas à morte.

Para completar:

– Por que o Palácio do Planalto decretou sigilo de até 100 anos ao cartão de vacinação do ilustre chefe da nação? Será que ele esconde algum segredo de Estado?

– O papa Francisco também denuncia: “Há um negacionismo suicida que não consigo explicar”.

– E, na verdade, ninguém quer que Bolsonaro se mate. Antes da divina, a justiça dos homens espera por ele.