Cinco mulheres brasileiras que lutaram contra o fascismo, o machismo e o racismo

Por: Hannah Ramos

Estamos há menos de dois meses dentro de 2019 e já fomos levados por uma enxurrada de tragédias, medos e inseguranças. Esse é um sentimento recorrente para qualquer um que faça parte de uma minoria social, e para as mulheres brasileiras, o terror está sendo cada vez mais opressor, seja por conta de que nos 11 primeiros dias do ano já tenham ocorrido 33 feminicídios, seja por conta da atual Ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos ser uma grande disseminadora de ideais antifeministas (e fascistas), seja por conta da desarquivamento da PEC 29/2015, ou “PEC da Vida”, que proíbe o aborto independente da circunstância da gravidez, entre outros retrocessos.

Mas vale lembrar que mesmo nos momentos menos favoráveis da história tupiniquim, as mulheres nunca se calaram e se mostraram forte resistência, e que mesmo o machismo da história no Brasil tenha tentado apagá-las, devemos sempre lutar para que elas nunca sejam esquecidas. Desse modo, vamos relembrar cinco mulheres da nossa história que lutaram contra todas as opressões que já experimentamos e vamos experimentar durante esse novo governo.

 

 Maria da Penha (1945-)

Maria da Penha Maia Fernandes é uma farmacêutica cearense sobrevivente da violência doméstica. Em 1983, levou um tiro do marido, Marco Antônio Heredia Viveiros, o que a deixou paraplégica, e depois de se recuperar, foi mantida em cárcere privado e sofreu uma nova tentativa de assassinato do então marido por eletrocução. Penha levou seu caso à Justiça, conseguindo sair de casa com as filhas, e seu caso acabou se tornando emblemático ao ser levado, em 1988, à Comissão Interamericana dos Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos. Maria lutou também contra a ineficácia da Justiça brasileira, que demorou 19 anos para julgar, condenar e prender seu marido. Então, após um longo processo de luta, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou a Lei nº 11.340, conhecida como Maria da Penha, em 2006, que coíbe violência doméstica contra mulheres.

Ísis Dias de Oliveira (1941-1972?)

Ísis foi estudante de Ciências Sociais na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo (FFCL-USP) e também militante da Ação Libertadora Nacional (ALN). Em 1968, viajou para Cuba para realizar o treinamento de guerrilha e retornou ao Brasil em 1969, onde passou a viver clandestinamente. Em 1970, mudou-se para o Rio de Janeiro e em 31 de janeiro de 1972, foi presa e levada para o DOI-CODI/RJ e nunca mais foi vista, permanecendo até hoje como uma das desaparecidas da ditadura. Apesar da morte de Ísis ter sido confirmada pelo general  Adyr Fiúza de Castro em 1979, os relatórios dos ministérios do Exército e da Marinha, em 1993, afirmavam que ela permanece “foragida”. Ela foi casada com José Luís Del Royo, militante do PCB e responsável por requerer do Arquivo Nacional o documento que denuncia o assassinato da jovem no mesmo dia de sua prisão.

 

Lélia Gonzalez (1935-1994)

Lélia d’Almeida Gonzalez, nascida em Belo Horizonte, era filha de pai negro ferroviário e mãe indígena doméstica, além de ser a segunda mais nova de 18 filhos. Apesar da infância pobre e do trabalho como babá na adolescência, mudou-se para o Rio de Janeiro em 1942, cidade onde se formou em História e em Filosofia pela Universidade do Estado da Guanabara (UEG), atual Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Fez mestrado em Comunicação Social e doutorado em Antropologia Política pela USP, o que a fez dedicar-se a pesquisas sobre relações de gênero e etnia. Tornou-se professora de Cultura Brasileira na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Quando professora do Ensino Médio, fez de suas aulas de Filosofia um espaço de resistência e crítica político-social. Ajudou a fundar o Movimento Negro Unificado (MNU), o Instituto de Pesquisa das Culturas Negras (IPCN), o Coletivo de Mulheres Negras N’Zinga e até mesmo o Olodum. Sua militância em defesa da mulher negra a levou ao Conselho Nacional dos Direitos da Mulher (CNDM). As obras de Gonzalez revelam a posição estratégica da mulher negra na sociedade brasileira e sua presença no âmbito acadêmico foi um avanço significativo tanto para o movimento negro quanto para o movimento feminista.

 

Nise da Silveira (1905-1999)

Nise foi uma renomada médica psiquiatra brasileira, aluna de Carl Jung, formada pela Faculdade de Medicina da Bahia, a única mulher dentre os 157 homens de sua turma. Além de ser uma das primeiras mulheres formadas em Medicina no Brasil, casou-se com o sanitarista Mário Magalhães da Silveira, que publicava artigos em que apontava as relações entre pobreza e desigualdade com a promoção da saúde e prevenção da doença no país. Militou no PCB nos anos 1930 e foi presa após a Intentona Comunista pela posse de livros marxistas. Tornou-se conhecida por participar ativamente da luta antimanicomial, sendo contra o uso de eletrochoques, lobotomia e o confinamento em hospitais psiquiátricos, implementando métodos alternativos de terapia como a pintura e modelagem e sendo pioneira no uso terapêutico das relações entre pacientes e animais.

 

Marielle Franco (1979-2018)

Marielle Francisco da Silva foi uma socióloga, política, feminista e defensora dos direitos humanos filiada ao Partido Socialismo e Liberdade (PSOL). Cresceu em uma favela do Complexo do Maré, no subúrbio carioca, e com 11 anos trabalhou junto aos pais como camelô. Era assumidamente bissexual, e em 1998, quando estava casada com seu primeiro namorado, deu à luz a sua única filha. Em 2000, após uma amiga ser atingida fatalmente em uma troca de tiros entre policiais e traficantes, começou a militar pelos direitos humanos. Entrou da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) pelo Programa Universidade Para Todos (Prouni) em 2002, onde se formou em Ciências Sociais, e fez o mestrado em Administração Pública na Universidade Federal Fluminense (UFF). Na eleição estadual carioca de 2006, Marielle integrou a equipe de Marcelo Freixo na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (ALERJ), onde assumiu a Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania e prestou auxílio jurídico e psicológico a familiares de vítimas de homicídios e policiais vitimados. Em 2016, foi eleita com 46 mil votos, sendo a quinta vereadora mais votada no município e a segunda mulher mais votada para o cargo em todo o país. Na Câmara Municipal, presidiu a Comissão de Defesa da Mulher e fez parte de uma comissão cujo objetivo era monitorar a intervenção federal no Rio de Janeiro, da qual era grande crítica. Também trabalhou na coleta de dados sobre a violência contra a mulher, pela garantia de aborto nos casos previstos por lei e pelo aumento da participação feminina na política. No dia 14 de março de 2018, foi executada com três tiros na cabeça e um no pescoço, no qual teve um possível envolvimento da milícia carioca.

 

Assim como essas mulheres, devemos lembrar que nossa batalha de nada vale se estivermos dispostos a desistir no momento em que elas são mais importantes e valiosas. Cada uma delas foi calada de alguma maneira, e mesmo assim tiveram coragem de se levantar, se impor e defender o que é certo e extremamente necessário. Nossas amigas lutaram para que nós, que vivemos hoje em dia, não tenhamos que passar pelos mesmos traumas que elas passaram, portanto devemos levantar nossa voz não apenas pensando em nós mesmas, mas para que as gerações futuras possam viver sem medo. Todas as minorias precisam levantar a voz agora. Não podemos e nem vamos nos calar!