BoJack Horseman e a invisibilidade social feminina

Por: Hannah Ramos

BoJack Horseman, uma animação adulta da Netflix estreada em 2014, é uma das séries mais renomadas da plataforma e da atualidade, e não é difícil de entender: ao longo de suas cinco temporadas, a história foi se desenvolvendo, ficando cada vez mais ousada ao fazer críticas satíricas ferrenhas a pontos sociais importantes mas sem perder a graça proporcionada pelo humor ácido e às vezes até bobo (em um potencial bom sentido). Além do foco da animação no desenvolvimento de seu personagem-título, BoJack Horseman (um homem-cavalo que é um astro hollywoodiano decadente, dependente químico, alcoólatra e depressivo), que serve para fazer principalmente as mais duras críticas a sociedade superficial de Hollywood, Los Angeles, BoJack não é o único a levantar pautas importantes: em segundo lugar, e não muito atrás, está Diane Nguyen, uma americana de descendência vietnamita que sofre por questões profissionais, familiares e sociais. Diane é uma das personagens com mais desenvolvimento emocional do desenho: apesar de sempre ter sido mostrada como uma intelectual mal interpretada e feminista, seus esforços durante os cinco anos de série servem para fazer uma incrível sátira ao papel da mulher na sociedade e como no papel feminino social é muito mais difícil de se obter destaque por mérito (e não por escândalos, mas chegaremos lá) do que no masculino.

BoJack Horseman

Três episódios em que a abordagem sobre o tema da mulher na sociedade é o que mais chama atenção são os Brrap Brrap Pew Pew (Temporada 3, Episódio 6), Thoughts And Prayers (Temporada 4, Episódio 5) e BoJack the Feminist (Temporada 5, Episódio 4). Esses episódios são dignos de nota e interpretação devido à sátira a elementos muito importantes sobre como as mulheres são vistas, mas não são os únicos a tratar desse tipo de tema (contém spoilers).

O sexto episódio da terceira temporada, Brrap Brrap Pew Pew, não é o primeiro episódio em que Diane tem os holofotes direcionados à ela: isso já aconteceu em temporadas anteriores, mas esse é o primeiro cujo foco é o choque de realidade do desenho com a nossa. Nesse episódio, Nguyen decide que irá fazer um aborto e, sem querer, posta numa rede social sob o nome de uma ícone pop adolescente, Sextina Aquafina, que irá abortar. A mídia cria rebuliço ao redor disso, afinal, Sextina tem apenas 16 ou 17 anos, e a sociedade hollywoodiana acha um absurdo uma popstar teen “falar com tanta naturalidade sobre o assunto”. Começa uma onda de manifestações em Los Angeles sob os gritos de “aborto é assassinato”, e a polêmica se torna tão grande que acaba alavancando a carreira de Aquafina, que decide continuar fingindo que é ela quem irá fazer o aborto. Diane, que gerencia as redes sociais da adolescente, e Princess Carolyn, empresária da mesma, resolvem lançar Sextina como um ícone da defesa da liberdade da mulher, visto que ela está sendo pesadamente criticada por causa de (imaginem!) homens brancos e héteros que, como o desenho força, acreditam em muitas mentiras sobre a gravidez e o aborto e disseminam a ideia de que o aborto não deveria ser legal e que as mulheres deveriam ter os filhos como “punição”. No fim das contas, a música de Aquafina sobre liberdade de escolha sobre aborto acaba encorajando muitas mulheres e jovens a se sentirem menos culpada por essa escolha, que nada de errada tem.

BoJack Horseman e Diane Nguyen

O quinto episódio da quarta temporada, Thoughts And Prayers, aborda um dos temas mais polêmicos dos Estados Unidos: o controle de armas. Nesse episódio, um tiroteio em massa num shopping se mostra um pesadelo paara Princess Carolyn (que estava produzindo um filme de ação com armas ambientado num shopping) e Diane usa disso para tentar convencer a todos que armas deveriam ser mais difíceis de serem conseguidas. Durante o episódio, ocorrem diversas chacinas (com atiradores homens) que, para o espanto da escritora, não levam ninguém a discutir a regulamentação armamentista americana, limitando a todos os dizerem de “pêsames” para as famílias. Porém, eventualmente, Nguyen vai para um treinamento de tiro e compra uma arma para si mesma, pois a posse de arma a faz sentir mais segura contra o assédio sexual e moral masculino. Ela, então, escreve um artigo explicando os motivos de, como mulher, se ter uma arma, o qual se torna extremamente popular. Mas aí temos uma reviravolta e a maior crítica do episódio: após o acontecimento de um tiroteio com uma atiradora mulher, a mídia fica em alerta e começa a perguntar se mulheres realmente podem ter armas, chegando a entrevistar homens que agora dizem que não se sentem mais seguros por causa disso. Consequentemente, após uma auditoria sobre o direito das mulheres de terem armas, o Congresso (formado majoritariamente por homens) decide banir o porte de armas da Califórnia, o que leva Diane a dizer, no fim do episódio: “Eu não acredito que esse país odeia mais as mulheres do que ama as armas”. A série nos mostra aqui como os direitos das mulheres são decididos pelos homens, que muitas vezes não são capazes de compreender o que elas passam nem de suportar o que elas suportam, o que torna a luta pela igualdade ainda mais difícil.

Já o último episódio destacado, o quarto da quinta temporada, BoJack The Feminist, nos mostra uma situação muito atual. A trama do episódio se trata de Princess Carolyn escalar para a sua mais nova série Philbert um ator que ressurge das cinzas chamado Vance Waggoner. O próprio Vance é uma paródia jocosa de Mel Gibson, Alec Baldwin e similares, tendo comportamentos absurdos, racistas, misóginos, machistas entre outros. Mas apesar de tudo isso, ele é perdoado pela mídia (e consequentemente pela população de Hollywood) e ganha o prêmio Forgivie, no We Forgive You Arwads (Premiação Nós Te Perdoamos, em português). Diane fica enojada com isso, e decide aparecer na premiação junto com BoJack e Princess para tentar denunciá-lo. No momento em que Waggoner vai receber o prêmio, BoJack pega um pedaço de queijo, o cheira e faz uma careta, que é pega por uma câmera e é usada midiaticamente dizendo que Horseman não perdoou Vance, o que resgata as atitudes polêmicas deste. Ele reclama com Carolyn, que leva BoJack à televisão para explicar, mas eventualmente na entrevista o homem-cavalo toma uma posição contra Waggoner por pura inveja de sua recepção positiva. Vance desiste de estrelar em Philbert, e Princess Carolyn decide juntar Nguyen e BoJack para tentar fazê-lo um ícone feminista e popularizar a série, e apesar do esforços da escritora para explicar para o ator como o feminismo existe na cultura, ele não aprende quase nada, mas o transforma na cara do feminismo de qualquer maneira. Horseman está na televisão quando descobre que Vance Waggorn agora é feminista e alega que saiu de Philbert porque a série era machista, o que, depois, BoJack quer tenta desmentir mas Diane alega que na verdade a série é sim machista. O ator então decide pedir para a Nguyen que trabalhe no roteiro da série para que ela faça a diferença, mas o papel dela se resume a não interferir na história e apenas receber seu pagamento, pois apenas por ter um mulher na produção da série já faria com que pensassem que esta não fosse sexista. Esse episódio nos mostra como os homens são facilmente perdoados apesar das barbaridades que cometem, o que contrasta com o movimento #MeToo que ocorre nos EUA atualmente, e como homens são mais levados a sério do que as mulheres sobre as próprias pautas, pois a sociedade dá atenção mais aos que os homens dizem mesmo não sendo seu lugar de fala (o que aqui é exemplificado com o feminismo).

Esses três momentos da animação são os mais explicítos, mas durante todo BoJack Horseman o tema das mulheres é abordado constantemente. A quinta temporada, lançada neste ano, foca bastante em Diane Nguyen, tanto em sua cobrança para com trabalho e família como nas dificuldades constantes de estar socialmente ciente de seu papel e sua incapacidade de mudar a situação das mulheres de verdade, e antes disso a escritora também recebia atenção, apesar de mais difundida. O desenho também nos apresenta a personagem Sarah Lynn, atriz mirim que se tornou popstar e a qual, sexualizada muito nova e com um sucesso estrondoso, acaba por cair nas drogas, mundo do qual não se recupera, e Sextina Aquafina, a cantora teen que polemiza mas também cai na genérica da jovem sexualizada. Mas sem dúvida, a segunda personagem mais importante da série é Princess Carolyn, uma gata cor de rosa que dedicou toda a sua vida ao trabalho e, agora que já está mais velha, sofre uma tremenda pressão social para ser mãe e formar uma família, mas todas suas tentativas dão errado e ela acaba se tornando numa das personagens mais complexas por acabar se frustrando não só com a vida pessoal, mas com o próprio emprego; e a incapacidade de ser mãe a torna uma mulher amargurada que sente sua vida desperdiçada. Os episódios focados nela se aprofundam muito no seu emocional e ambições / frustrações, o que a faz uma das mais (senão a mais) profundas personagens que a série tem a oferecer.

BoJack Horseman foi renovada para a sexta temporada, que sairá em 2019, e muito provavelmente continuará aumentando o foco em suas personagens femininas que, além de fortes, são um grito de como a mulher é subjugada e marginalizada na sociedade e perante ao governo. Podemos esperar que, se continuar nesse ritmo, mais pessoas se conscientizem da hipocrisia que é a falta de igualdade de direito entre os gêneros.