“Aves de Rapina” e a emancipação da representatividade feminina

Nota: o texto contém pequenos spoilers sobre a história do filme e as traduções foram feitas livremente.

Por: Hannah Ramos

Um dos poucos filmes blockbuster a ter conseguido preservar sua estreia no ano de 2020, Aves de Rapina: Arlequina e Sua Emancipação Fantabulosa fez sua estreia mundial no dia 6 de fevereiro desse ano, escapando por pouco do surto de COVID-19 que fez com que muitos dos filmes mais aguardados fossem adiados se não para o fim do ano, para o ano que vem. Acompanhado de uma divulgação tardia e muitas ressalvas dos fãs de histórias em quadrinhos (principalmente por ser um público majoritariamente masculino, mérito que entrarei mais tarde) por conta do fracasso de Esquadrão Suicida, parecia que tudo conspirava para o filme também acabar severamente mal visto por crítica e público. Por mais que o filme tenha tentado se desvincular ao máximo da ideia de ser uma “continuação” de Esquadrão Suicida (coisa que, em minha opinião, consegue com muita graça), a grande sacada da diretora Cathy Yan foi não tentar fingir que esse último nunca tinha existido, e sim fazer pequenas referências a ele como que tirando sarro. Mas acima de tudo, diferentemente do que acontece no Universo Cinematográfico da Marvel, assistir Esquadrão Suicida ou não de nada influencia na verdadeira experiência que Aves de Rapina quer e consegue transmitir. E é dessa experiência que vou falar no decorrer deste texto.

Não vou entrar nos méritos técnicos do filme e nem fazer uma análise acerca suas inspirações nas HQs – até porque nem tenho como, não possuo conhecimento para redigir uma análise deste tipo. O que vou procurar discorrer sobre é o que o filme significa dentro do contexto que foi lançado: em meio a tantas obras cinematográficas de super heróis que temos acompanhado os lançamentos, desde Homem de Ferro em 2008, filme que inaugurou o Universo Cinematográfico da Marvel, além dos filmes lançados pelo Universo Estendido da DC, este próprio inaugurado por Homem de Aço (2013), o que exalta a importância de um filme como Aves de Rapina?

A começar, vou tratar um pouco do “feminismo” dos meios empresariais. Por mais que a pauta feminista esteja muito em voga já faz um tempo, ela carece de desenvolvimento: costuma prender-se na simples ideia de “representatividade” ou “empoderamento”, ideias demasiado vagas e também demasiado repetidas dentro do feminismo liberal majoritariamente branco. É óbvio, ou deveria ser, que o feminismo pauta coisas maiores e mais importantes que a simples ideia de termos mulheres em condições de poder, ou termos filmes com elenco primordialmente feminino. Não digo que essas ideias são fúteis ou inúteis – não são, de modo algum -, mas a questão é que não pode parar somente por aí. Do que adianta mulheres no poder se elas perpetuam opressões estéticas, sociais e raciais? Qual a verdadeira utilidade do feminismo se dentro dele não existem recortes raciais e de classe? Qual sua utilidade quando prega libertação, mas apenas um tipo de libertação? O que é a libertação do machismo sem a libertação do capitalismo? Porque o machismo é um dos pilares estruturantes do capitalismo que vivemos (seja ele realmente o capitalismo, ou a degeneração deste). Trago estas questões para embasar as críticas que farei no decorrer dessa análise; não pretendo respondê-las agora (nem posso), mas posso discorrer melhor sobre elas em outro texto. Não é meu foco aqui. Mas também gostaria de dizer que essas pautas, mesmo que superficiais, são importantes para uma iniciação na teoria feminista; podemos dizer que é a porta de entrada para drogas mais pesadas. E Aves de Rapina, tendo sido proposital ou não, vai pra muito além do que defini aqui como “feminismo empresarial”, pois não apenas se preocupa em colocar mulheres em condições de poder dentro e por trás das telas, como serve para quebrar muitos dos paradigmas que filmes de super heroína haviam seguido até então. Dito isso, ao filme.

Começando pelos aspectos técnicos, Aves de Rapina reúne Cathy Yan na direção – sendo esta sua estreia em um blockbuster -, Christina Hodson como roteirista – responsável pelo roteiro de Bumblebee (2018) e pelos futuros The Flash e Batgirl – e produtora, e um elenco cheio de grandes nomes como Margot Robbie (que também é produtora do filme), Rosie Perez, Mary Elizabeth Winstead, Jurnee Smollett-Bell, Ewan McGregor e Ella Jay Basco. Tratando-se de um filme de super herói, a primeira coisa que chama a atenção é a quantidade incrível de mulheres em papéis principais e envolvidas na produção do filme. A presença de mulheres é estarrecedora até mesmo na trilha sonora: a trilha sonora original é composta inteiramente por artistas femininas, e as músicas coadjuvantes, em sua grande maioria, também (com Joan Jett & The Blackhearts e Heart marcando presença em partes memoráveis do filme). Outra coisa que se nota é o fato de o grande vilão do filme (e, na verdade, a grande maioria dos criminosos que querem se vingar de Arlequina) ser um homem. Isso tem grandes ramificações para o que o filme vem a dizer, propositadamente ou não. Também é digno de nota que, das cinco mulheres que protagonizam o filme, três são não-brancas. Isso é outro aspecto que foge da representatividade feminina vista até então – uma que segue padrões de beleza muitas vezes irreais e racistas.

Aves de Rapina: Arlequina e Sua Emancipação Fantabulosa não tem uma história complicada: gira em torno do típico roubo de diamante de histórias de crime. A grande diferença é o papel que esse diamante desempenha no desenvolvimento de cada uma das personagens. Enquanto, por um lado, existe a construção da organização que vai ser chamada de “Aves de Rapina”, por outro, existe a busca pela emancipação de Arlequina (Margot Robbie), como evidenciado pelo título do filme. O grande eixo norteador da obra é exatamente essa emancipação, que se trata, nada mais e nada menos, do que a procura pela independência da Arlequina depois do término de seu relacionamento com o Coringa. Mas o filme vai muito, muito além de deixar a personagem viver apenas na sombra do seu ex-companheiro mais famoso: o começo do filme, uma animação que conta a vida de Harleen Quinzel (verdadeiro nome da vilã, antes de se apaixonar por Coringa e cair na vida do crime), deixa claro como ela não é e não deve ser conhecida simplesmente como a namorada do Palhaço do Crime. Desde explicar sua infância turbulenta até a conclusão do seu doutorado em psiquiatria, essa recapitulação tem o trabalho de nos mostrar que toda a glória recebida e atribuída ao seu ex-namorado veio, na verdade, de seus esforços. Ela era como se fosse o bode expiatório do vilão, sendo sempre usada por ele para alcançar seus objetivos e, no fim, levando-a a loucura que hoje a caracteriza como Arlequina. Toda a história de vida dela é contada de modo a mostrar-nos que ela era uma grande mulher ofuscada por um homem oportunista, e que sua independência é muito mais que necessária. Porém, o término dela com o Coringa a traz imensos sofrimentos (muito provavelmente advindos da dependência de um relacionamento abusivo) retratados no filme, sendo o mais importante sua transformação em um alvo fácil para todos os criminosos da cidade de Gotham: ela explica que sendo namorada do Coringa, tinha uma imunidade que, agora, já não mais existia.

A situação dela traça um paralelo imenso com uma outra personagem de um mundo completamente diferente. Renée Montoya (Rosie Perez) é uma policial com um histórico de excelência que resolveu todos os grandes casos policiais de Gotham, mas cuja glória foi roubada por um colega de trabalho, acarretando em sua própria estagnação profissional enquanto o outro fora promovido. Essa semelhança de contextos traz uma mensagem importante: não importa de qual lado esteja, o quão boa você seja, sempre existirá um homem mais reconhecido do que você tendo feito menos. Aqui, o maniqueísmo do bem e do mal é quebrado em nome de um denominador comum: o machismo.

O grande êxito do filme, no geral, é tornar todas as personagens, por mais distintas que sejam, relacionáveis entre si e entre as telespectadoras. As situações que elas vivem são extremamente identificáveis para qualquer mulher: a impulsividade da Arlequina quando corta o cabelo, sua difícil recuperação após o fim de um relacionamento, e sua saída para a boate de Roman Sionis (Ewan McGregor), onde enche a cara até vomitar e é censurada por se divertir por um homem. Esse momento é um dos mais interessantes do filme. Enquanto a vilã está se divertindo visivelmente alcoolizada, um homem da boate a diz para se sentar e a chama de vagabunda (“slut”, em inglês) e de burra. Arlequina, que não aceita mais engolir sapo de homem nenhum (atitude que todas nós deveríamos ter), quebra as pernas desse homem e diz “me chamando de burra… eu tenho doutorado, filho da puta”. Essa cena é extremamente marcante e relacionável porque, mesmo sendo exagerada pela atitude de Harleen, creio que não exista uma mulher que não tenha tido sua inteligência desmerecida simplesmente por estar se divertindo em um lugar como um bar ou uma balada. E, pouquíssimo tempo depois, a vilã ouve um grupo de conhecidas falando que não acreditam no término dela com Coringa; que se ele estalasse os dedos, ela voltaria. Esse momento é pivotal para a continuidade do filme, porque após isso, Arlequina decide mandar um grande recado à toda a cidade de Gotham: ela não apenas se livra do seu colar que tem a letra J (um ode à “Joker”), como explode a usina de químicos tóxicos que era o símbolo de seu romance. Eis outro momento extremamente identificável da obra: quantas de nós não se tornou tão dependente de um homem que ninguém acreditaria em nossa independência, ou nas palavras do filme, em nossa emancipação?

O mais incrível é que, sem sabermos, enquanto Harleen executa esse “singelo” plano de emancipação, Gotham abre as portas para outra personagem: Caçadora (Mary Elizabeth Winstead) passa de coadjuvante misteriosa para uma das grandes peças mobilizadoras da história, sendo, nas palavras de Arlequina, “uma máquina de matar” com enorme sede de vingança. Por mais que a personagem permaneça misteriosa por grande parte do filme, ela desempenha um grande e importante papel nas últimas cenas, das quais vamos a tratar mais para frente.

A partir daí, no desenvolvimento da história, temos outro ponto alto: Harleen Quinzel e sua relação com o sanduíche de ovo. O filme comicamente substitui o papel do parceiro dela pela sua paixão infindável por esse sanduíche, que ela tragicamente não chega a comer por conta de uma perseguição policial e criminal. É nessas partes do filme que começamos a entender o que ela já fez de ruim para muita gente, dos dois lados da moeda, e que não tinha sofrido consequências por conta de seu relacionamento com Coringa. Mas isso não a abala; ela consegue sair (quase) todas as vezes ilesa por conta de suas incríveis habilidades e, às vezes, impulsividade. Saber que Margot Robbie praticamente não usou dublês para fazer as cenas de luta deste filme, que são coreografadas por ninguém mais ninguém menos do que Jon Valera e Jonathan Eusebio, coreógrafos da série de filmes John Wick, é simplesmente impressionante. No geral, todas as mulheres realizam um ótimo trabalho nas cenas de luta do filme, e é de deixar de queixo caído o desempenho delas.

Mas por que a história do diamante se torna tão complicada e começa a envolver tantas personagens diferentes? O fator que une todas essas mulheres é uma simples menina: Cassandra Cain (Ella Jay Basco), uma batedora de carteira que, sem querer, se mete no meio dessa história por roubar e engolir o diamante, sem ter nem ideia de seu valor e das pessoas que estão envolvidas nessa missão. É aí que sabemos um pouco mais da história desse diamante, o porquê de ele ser tão importante (além de, claro, ser um diamante) e o plano de Renée para capturar Sionis, que é descreditado pela polícia e até pela própria ex-esposa dela.

Aos poucos, o filme vai nos mostrando a verdadeira face de Roman Sionis. Primeiro, um homem simpático que é lorde do crime; depois, um assassino a sangue frio que possui um desejo desenfreado de matar a todos que lhe contrariem (e, em especial, Arlequina) com atitudes e falas regadas tanto à misoginia quanto à masculinidade frágil. Sua busca pelo diamante é uma incessável busca pelo poder, capaz de tudo para consegui-lo. Ele vai, aos poucos, se tornando uma das personagens mais detestáveis e repulsivas, principalmente na cena em que ele, claramente perturbado por ver seus planos dando errado, decide humilhar uma mulher em sua balada, mandando-a subir na mesa e a despindo quase que completamente, simplesmente para demonstrar poder. Tudo isso em frente aos olhos de uma de suas funcionárias mais leais: Dinah Lance, ou como é mais conhecida, Canário Negro (Jurnee Smollett-Bell), que chega a chorar de desconforto.

Canário Negro também é essencial para o filme. Desde informante da polícia à vizinha de Cassandra, ela salva Arlequina de um abuso sexual seguido de sequestro que, sem querer, a promove à motorista de Roman. Mesmo com sua relação passivo-agressiva com Arlequina, as duas são engrenagens que funcionam perfeitamente juntas, e acabam cuidando uma da outra sem nem ao menos perceber, simplesmente por solidariedade às situações que ambas passam. A perda do diamante faz com que essas quatro personagens se encontrem, de uma maneira ou outra. Arlequina é capturada por Roman e seu capanga, que planejam matá-la por conta de tudo que ela já fez de ruim a ele (o que reúne uma diversidade de motivos hilários, como “ter uma vagina” e “ter votado no Bernie [Sanders]”, o que querendo ou não mostra muito do caráter do vilão), mas ela consegue escapar com vida em troca da recuperação da pedra.

É assim que as quatro personagens principais e suas respectivas linhas narrativas se entrelaçam no filme: Canário e Arlequina tentam recuperar o diamante, Renée tenta encontrar provas para prender Sionis e Caçadora busca vingar sua família, cujo caso descobre estar ligado diretamente ao vilão.

Aliás, a ótima reconstrução de “Diamonds Are A Girl’s Best Friend” de Marilyn Monroe que Arlequina protagoniza em uma de suas alucinações é uma das cenas mais bonitas esteticamente, além de traçar um paralelo hilário e crítico entre o que significa o diamante para cada uma delas em suas diferentes situações (e também ressalta a loucura inerente à vilã).

O que há de mais legal dentre todos os relacionamentos presentes no filme é certamente o de Harleen com Cassandra. Começando por ser um sequestro cheio das mais diferentes intenções, elas desenvolvem uma amizade e um companheirismo que dificilmente se vê em filmes. Não só pelas duas estarem no mundo do crime, mas porque é aparente a valorização que Cassandra atribui a mulheres fortes e independentes, tanto que mesmo sabendo que Arlequina só está com ela pelo diamante que vale literalmente sua vida, Cain prefere permanecer ao lado dela por vê-la como alguém capaz de protegê-la da maldade dos homens que as duas enfrentam com o passar do filme. Mas é inegável que um dos ápices dessa relação (e a parte do filme que mais deixa clara a importância subconsciente que Cassandra atribui às mulheres) é quando, ao ver a “obra de arte” que Arlequina dedica ao Coringa em sua casa, a menina diz não fazer ideia de quem seja o tal Príncipe Palhaço do Crime de Gotham. A simbologia dessa cena bate extremamente forte, ainda que cômica, para a mensagem principal do filme: as mulheres podem e são, muitas vezes, mais fortes do que os homens que são mais conhecidos que elas.

Logo após isso, chega um dos momentos mais emocionais do filme: quando o “protetor” de Harleen aceita dedurá-la por uma grande quantia de dinheiro. Por mais que ela tenha acreditado que podia confiar nele, ela é apunhalada pelas costas na primeira oportunidade. A obra deixa claro que, entre homens e mulheres, não existe a mesma solidariedade e companheirismo do que entre mulheres; porque Cassandra teria muitos mais motivos para tentar escapar da mulher que quer entregá-la ao mestre do crime da Zona Leste de Gotham do que o homem que simplesmente a abrigava e a quem ela nunca havia feito nada de ruim, fazendo assim uma crítica não só à falta de lealdade masculina como também ao capitalismo – onde frequentemente se diz que “todo mundo tem um preço” (afirmação que esta cena mostra ser verdade).

Isso tudo desemboca no que acaba por ser o gran finale da obra, onde todas as personagens se encontram, munidas de motivações umas contra as outras, mas todas contra Roman e este, contra todas. É então aí que Canário Negro, Arlequina, Caçadora, Renée e Cassandra tem que se juntar por conta de um mal maior: Roman Sionis, agora atrás do pseudônimo “vilanístico” de Máscara Negra, trazia consigo um exército de homens mascarados com o objetivo de sequestrar Cassandra e matar as outras quatro. Numa das cenas de batalha mais legais que já vi em um filme de super herói, as cinco demonstram imenso companheirismo; elas se ajudam, apesar de sua diferenças, a derrotar uma horda de homens, o que não poderia ser mais simbólico. Porque Sionis não quer matá-las simplesmente por conta do diamante; ele quer matá-las porque elas o desobedeceram. Elas desafiaram sua supremacia, questionaram seu poder, se mostraram mais relevantes do que ele. Para um vilão como Roman, isso é inadmissível. Ele se curva a outros homens, mas não a mulheres. Ele não quer matar Harleen quando ela é o chaveiro do Coringa, ele quer matar Harleen quando ela começa a responder por si. O mesmo com Dinah. Ele quer matar Caçadora por temê-la, porque ela desrespeitou seu poder em Gotham. O mesmo com Renée. Um dos momentos mais gratificantes e cômicos do filme (e o que mostra como ele é dirigido e produzido por mulheres, para mulheres) é quando Canário, no meio da luta, se atrapalha com seu cabelo solto e Arlequina lhe oferece um elástico de cabelo. É algo tão simples, mas que transborda representação feminina. E é por esses motivos que o exército de Máscara Negra ser formado apenas por homens é extremamente compreensível. E é por isso que sua derrota é ainda mais dolorosa para ele e divertida para nós: ele tenta, pateticamente, até o último minuto, como se se negasse a aceitar a vitória das mulheres. Após esse desfecho, o filme conclui-se com a formação das “Aves de Rapina” e da agora consagrada emancipação de Arlequina.

Uma das críticas que esse filme recebeu, tanto de homens quanto de mulheres, era que esse filme poderia ser uma perigosa incitação ao crime para as meninas. Mas é nesse aspecto que o vejo mais subversivo. Por mais que tenhamos filmes de super herói com protagonistas mulheres, como Mulher-Maravilha (2017), dificilmente encontramos uma mulher realmente emancipada das questões socio-culturais. A própria Diana, no incrível filme que é Mulher-Maravilha, por mais que seja uma amazona extremamente poderosa, acaba por se escorar no seu romance com Steve Trevor. Ela se sente obrigada a sucumbir a padrões sociais de modo a se disfarçar no nosso mundo humano. Isso é uma coisa da qual Aves de Rapina tenta se afastar completamente: todas as suas personagens subvertem, hora ou outra, as convenções sociais nas quais vivem (com exceção de Arlequina, que já vive numa ordem social subvertida por conta de sua loucura e vida no crime). O filme tenta e consegue passar o exemplo de que a mulher forte não precisa e não deve ser sempre boazinha, não é perfeita, é falha, erra, e muitas vezes tem que fazer a coisa errada pra se preservar. Não existe um padrão irreal de perfeição feminina a ser seguido; as mulheres independentes erram e lutam para melhorar sua vida, e não devem se submeter a nenhum tipo de opressão simplesmente por convenção. Esse padrão de Mulher-Maravilha é infelizmente repetido em Capitã Marvel (2019), embora em menor grau. Este último é um dos melhores e mais divertidos filmes do Universo Cinematográfico da Marvel, embora siga a fórmula clássica destes filmes. Mas ainda assim, apresenta uma protagonista superpoderosa que põe o bem acima de tudo; sua grande quebra em relação ao padrão vigente foi tratar um pouco mais o empoderamento, mas de maneira vaga.

“Coincidentemente”, o mais bem avaliado dos três filmes que citei é Mulher-Maravilha, seguido de Capitã Marvel e por último de Aves de Rapina. Quando vamos olhar as críticas, principalmente destes dois últimos, a grande maioria é de homens dizendo que os filmes são ruins sem dar explicações, ou que estão mais preocupados com “propagar a agenda feminista” do que com a “fidelidade aos quadrinhos” (seja lá o que isso quer dizer, pois são mídias diferentes suscetíveis a adaptações). Por que que se sentem tão incomodados com isso? Existem centenas de filmes de super herói com protagonistas masculinos que sempre exaltam como o homem salva a mocinha, como ela é dependente dele, ou como ele é extremamente poderoso, ou como ele é dúbio. Nunca vi alguém reclamando que o Batman passava um mau exemplo aos meninos na trilogia de Christopher Nolan quando ele tomava atitudes e tinha falas de moralidade questionável. Por que Aves de Rapina (cuja classificação aqui no Brasil é +16) deveria se preocupar com isso? Também nunca tinha visto nenhum homem reclamar da personagem Viúva Negra não ter tido nenhum filme próprio até muito recentemente, sendo que ela é uma das principais personagens dos Vingadores e está presente nos filmes desde o começo, tendo muitos outros personagens (masculinos) sido priorizados. E ainda li comentários que perguntavam, quando foi revelado que o filme Viúva Negra teria classificação +18, se o filme teria cenas de sexo. Fico me perguntando se é isso que os homens esperam de filme protagonizados por mulheres terem alta classificação indicativa; será que se incomodaram que Aves de Rapina é +16 e em nenhum momento do filme a câmera foca nos seios ou na bunda das personagens? Porque vi homens reclamando que o filme havia deixado Margot Robbie “feia demais” (a mesma crítica foi direcionada à Brie Larson em Capitã Marvel); ela tem que estar bonita para personificar uma vilã louca?

Espero que muitos filmes de super heroína sigam o exemplo de representação feminina exibida em Aves de Rapina: Arlequina e Sua Emancipação Fantabulosa. Que os tão aguardados (pelo menos por mim) Viúva Negra, Batgirl e Supergirl consigam e tenham preocupação de passar o exemplo de mulheres como mulheres fortes e independentes, mas não apenas independentes dos homens, como também das amarras sociais que as cercam. Eu fui ver Aves de Rapina com vinte anos de idade, e saí maravilhada. Eu só imagino o que deve ser ter dezesseis anos e ver um filme como esse, que valoriza esses aspectos nas mulheres, e não as coloca simplesmente como coadjuvante de homens. Eu sei que era esse o filme que eu esperei por toda minha adolescência e nunca tive; que era esse o filme que eu queria ter crescido com. Independente da idade, essa mensagem deve ser passada, pois é um grande passo na emancipação da própria mulher. É esse tipo de representação que a mulher deve ter. Acho que cansei de ver as mulheres como a mocinha a ser salva e a protagonista boazinha que está além do bem e do mal. Acho que, por me passar essa incrível sensação do que é realmente uma emancipação no padrão de representatividade feminina nos filmes de super herói, esse filme já vale muito mais do que as pessoas (os homens?) dizem. É isso que Aves de Rapina significa. E isso é mais importante que a aceitação de qualquer público ou crítico.