A Luz através do asfalto (Mus Musculus)

“Hoje percebo que jamais existi” Mensagem encontrada na parede de uma das galerias no subsolo

A avenida principal cortava o centro da cidade de forma impiedosa. Casarões antigos, edifícios futuristas, museus, uma variedade de comércios e bares que corriam a madrugada cheios de gente fingindo interagir e se importar. Dividida em duas vias extremamente largas (caminhando para lados opostos e sempre lotadas de carros, motos e bicicletas), abrigava nas calçadas o abismo social que a maior parte das grandes metrópoles guarda consigo.

Apesar da monumental obra, anunciada há meses como uma nova estação do Metrô, aquele parecia um dia comum. A maioria das pessoas caminhava apressada num amontado de pequenos universos particulares, cabisbaixas e distraídas, preocupadas e entretidas com a própria apatia, invisíveis umas às outras.

A LUZ ATRAVÉS DO ASFALTO (Mus musculus)

Por: Mafalda

O homem, na casa dos quarenta anos de idade, havia dedicado metade de sua vida à mesma empresa (um respeitado escritório) e acreditava no previlégio de uma estabilidade conseguida a partir do próprio mérito. Bem-sucedido, jamais faltou ao trabalho, sequer algum dia atrasou, fora sempre o primeiro a chegar e um dos últimos a sair. Constantemente elogiado por seus superiores e colegas de trabalho, era usado inúmeras vezes como exemplo na repreensão de algum funcionário da limpeza ou serviçal, quando, por qualquer motivo, chegavam atrasados. “O grande problema desse País é o comodismo. Ninguém gosta de acordar cedo, trabalhar duro. Querem tudo de mão beijada; povo preguiçoso” costumava dizer em voz alta a quem estivesse presente. Julgava ser um cidadão exemplar que, apensar de frequentar os ambientes mais distintos da sociedade, tinha uma preocupação imensa com o social, a ponto de contribuir financeiramente todos os meses com uma organização internacional que atendia os necessitados na Africa.

Na rádio oficial, plano de fundo na rotina do escritório em que trabalhava e que há tempos não tocava musica alguma, era noticiado um evento de pré-inauguração da nova estação, com a participação de autoridades, distribuição de brindes e lanches. A obra estava prevista para ser entregue dali algumas semanas, no dia sete de setembro.

Especialmente naquela manhã o chefe do seu departamento parecia exalar uma ansiedade duvidosa, os patrões estavam em reunião e algo grande estaria por vir. Juntou o grupo e anunciou:

– Nossos chefes estão reunidos com outras empresas e o pessoal do alto escalão.  Ao que consta até homens do governo participam. Passei agora a pouco na frente do salão e ouvi alguns comentários extremamente perturbadores. Falavam sobre “Eliminar as sanguessugas” “uma grande maioria de gente dispensável” “A questão é manter alguns para o funcionamento” e “não vamos deixar tudo que construímos durante gerações seja destruído”. Pelo que entendi a limpa começará em breve e alguns serão avisados ainda na parte da manhã. É melhor que todos estejam atentos. Vivemos tempos de crise e creio que muitos de nós perderão o emprego.

– Os bons funcionários não têm com o que se preocupar – sussurrou o homem para o amigo ao lado (considerava o chefe incompatível com a posição, incompetente).

– Por enquanto sem mais novidades, qualquer coisa eu aviso.

Sentiu o estômago roncar enquanto analisava os arquivos de um cliente e, ao olhar para o relógio, notou que entrara em horário do almoço. No elevador cumprimentou o ascensorista, que pareceu querer dizer algo, mas hesitou. Chegando ao térreo fez um sinal de positivo para o porteiro que o observava  com um olhar extremamente triste. Na recepção fez um gesto com a cabeça para um dos superiores que retribuiu com um sorriso cínico.  Estranho. Frustrado, caminhou para a saída e se dirigiu ao mesmo estabelecimento que costumava almoçar durante os últimos vinte e dois anos. A aglomeração na rua era imensa, o barulho das maquinas terrivelmente alto e o povo olhava abismado a imensa lona que cobria totalmente a estrutura protegida pelo enorme contingente policial. Deu de ombros e pensou em como essa gente se iludia com coisas tão banais, esquecendo o que realmente importava: trabalhar duro e, quem sabe um dia, após muito esforço, ser parte da tão sonhada elite. 

Aguardava o semáforo ficar verde para os pedestres quando, diante um empurra-empurra, notou uma senhora de muita idade ao seu lado, parecia desorientada:

– Desculpa, a senhora precisa de ajuda para atravessar? – A mulher o encarou de forma estranha e em seguida abriu um sorriso.

– Eu agradeço muito, meu jovem. Como é difícil encontrar alguém educado hoje em dia. A rua está tão cheia, fiquei um pouco confusa. Bem que meu filho me avisou para não sair de casa hoje. No meu tempo era tudo tão diferente, havia respeito para com os idosos – O homem então ofereceu o braço gentilmente.

– Segure aqui.

Enquanto atravessava ouviu um estrondo e sentiu que alguém agarrava seu outro braço. Olhou para os lados e notou uma multidão enfurecida e desesperada correndo por entre os carros e tomando a rua. Virou para a senhora e pediu calma, tentava se desvencilhar, mas estava cada vez mais absorto pela massa. Os pés mal tocavam o chão, já não tinha controle algum sobre si e, tomado pelo pânico, percebeu que estava sendo levado. “PRECISO CHEGAR AO OUTRO LADO”. Os carros começaram a sair em disparada, pessoas sendo atropeladas gritavam, bombas estouravam por todos os lados, barreiras começavam a ser levantadas, alguns pisoteados agarravam seu tornozelo, sirenes disparavam, tudo estava em completo caos:

– PELO AMOR DE DEUS, O QUE ESTÁ ACONTECENDO AQUI? – berrava o homem em desespero.

– Ninguém solta ninguém – disse uma moça.

– PRECISO PASSAR! TEM UMA SENHORA DE IDADE AQUI.

– Aguenta firme, nós precisamos resistir – dizia alguém que o empurrava por trás.

– EU NÃO SEI O QUE ESTOU FAZENDO AQUI. PRECISO VOLTAR AO TRABALHO.

– ACORDA PORRA! SEU TRABALHO NÃO EXISTE MAIS.

Perdeu a noção do tempo e sentiu estar enlouquecendo. Levado pela massa, totalmente dominado, conseguia observar por sobre os ombros pessoas sendo assassinadas a tiros por agentes do governo e outras tantas empurradas em direção ao que parecia um enorme forno, exatamente no local onde seria a inauguração da nova estação. Por outro lado alguns desesperados arrancavam as tampas do esgoto e se jogavam pra dentro. “Não posso morrer assim, que caralho está acontecendo?”. Prestes a perder a consciência, completamente atordoado, se soltou e rolou para uma boca de lobo aberta. Entrou enquanto pessoas lutavam umas com as outras, mulheres aos prantos protegiam seus filhos, policiais pobres espancavam jovens pobres e o asfalto começava a ser tomado pelo vermelho do sangue. A última imagem antes de cair desmaiado pelo buraco foi a daquela senhora gentil (que havia se desprendido do seu braço em algum momento) chutando uma criança de rua que se agarrava em sua bolsa. 

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A vida embaixo era uma catástrofe. Quando acordou eram poucos, mas logo foram chegando outros, muitos outros. Estavam todos nas galerias, amontoados, fedendo, revoltados.  Os que tentavam retornar pelas bocas de lobo eram empurrados e agredidos, forçados a voltar. Os que estouravam bueiros para subir a força eram mortos. Todos os dias, vindo de cima, as pessoas do esgoto ouviam bombas, tiros, gritaria, gente implorando, lutando, descendo, morrendo. Então um dia, passou. Silêncio.

A principio o homem resistiu em se misturar, apenas observava amedrontado. Pessoas de diversas classes sociais formavam uma massa violenta e faminta. Alguns assumiram a liderança e de alguma maneira tentavam organizar o caos. Grupos foram formados, o lixo que era jogado pelos dutos servia de alimento enquanto a água da chuva era estocada em potes sujos. Os bueiros, antes vigiados por pessoas comuns, agora eram monitorados por militares a espera de um comando qualquer. A ordem pareceu reestabelecida na superfície, enquanto no subsolo o desespero era crescente:

– Viram como está lá em cima hoje? As pessoas voltaram às ruas, como se nada tivesse acontecido. Nós estamos aqui morrendo de fome e parece que todos estão cagando. Mas que porra é essa?

Passaram semanas e as pessoas morriam doentes ou com fome. Os corpos, que antes eram queimados, começaram a ser consumidos. Pouco a pouco foi-se perdendo a humanidade.  O povo do esgoto passou a acreditar que não fazia mais parte daquele mundo que outrora habitaram:

– Somos pessoas do esgoto  – repetia um velho sem parar – Eu devorei uma pessoa.

O homem ouvia e observava tudo em silencio. Sabia que não era parte daquilo, estava ali por engano. Era questão de tempo até que o pessoal do serviço sentisse sua falta. Certamente viriam ao seu resgate e sua esperança era a luz que entrava pelas bocas todo o nascer do dia, a luz através do asfalto. Precisava manter a sanidade apesar da fome. Desidratado e anêmico, vivia de restos e estava severamente doente. Então fechou os olhos e descansou.

Foi acordado aos gritos, pânico total. Estavam cimentando os bueiros, fechando as bocas de lobo, isolando totalmente o povo que vivia no subsolo. Desesperado correu, e no breu total notou algo que antes não havia percebido: Os olhos de um menino pareciam brilhar no escuro, uma luz vermelha pavorosa. Tomado pelo desespero o agarrou:

– FECHARAM AS BOCAS! FECHARAM AS BOCAS – gritava enquanto chacoalhava  o corpo esquelético da criança – QUEM ELES PENSAM QUE SOMOS? COMO DEIXAMOS ISSO ACONTECER?

– Do que o senhor tá falando? – Disse calmamente o garoto.

– DO POVO LÁ DE CIMA.

– Ah, eles. Para essa gente, somos todos ratos.

Desesperado pegou uma pedra e pôs-se a  rabiscar a parede. Logo depois se atirou no córrego e nunca mais foi visto.

********

Na avenida uma senhora aborda um policial:

– Olá seu guarda, bom dia.

– Bom dia, como vai a senhora?

– Sabe como é, ainda me recuperando daquela época terrível. Graças a Deus terminou tudo bem. Aquela gente…não gosto nem de pensar.

– Não há mais com o que se preocupar.

– Posso tirar uma foto com o senhor?

– Claro que sim.

– Obrigada por tudo.