A indústria e seu abismo: quando o que mais precisamos não interessa

Mirando remédios mais lucrativos, empresas não querem produzir coisas básicas, como insulina e penicilina.

Por: Outras Palavras

Reportagem de capa da revista de fim de semana do Valor fala sobre como os avanços tecnológicos na indústria farmacêutica têm criado um abismo entre quem pode e quem não pode bancar medicamentos cada vez mais caros e personalizados. São as terapias gênicas, feitas sob medida, a fronteira que o setor está interessado em explorar agora. Enquanto isso, nota a reportagem, as empresas perdem o interesse em produzir coisas básicas como insulina. Sem falar em achar soluções para doenças que sempre foram negligenciadas por atingir as populações pobres do planeta. Segundo relatório da OMS, a cada US$ 1 investido em pesquisa e desenvolvimento, a indústria obteve um retorno de aproximadamente US$ 14 – o que significaria, na avaliação de oficiais do organismo, que parte dela está se concentrando em produtos de alto retorno para o investimento, o que desequilibra a oferta de medicamentos. 

Por aqui, a entidade que representa a indústria nacional – Sindusfarma – defende que cabe aos laboratórios públicos atender a população com medicamentos de menor interesse comercial, como penicilina, os remédios mais antigos que já perderam as patentes e os medicamentos para doenças negligenciadas. Às empresas “caberia” apenas os nichos lucrativos do mercado. O que, é claro, como nota Jorge Mendonça, diretor do laboratório público Farmanguinhos, da Fiocruz, causa um estrangulamento para o setor público, ainda mais em um cenário de desfinanciamento da saúde. E a penicilina é um bom exemplo, pois está faltando em diversas unidades públicas do país mesmo em um cenário de epidemia de sífilis. 

Além disso, informa a reportagem, o país assiste à desativação de diversas fábricas que produzem os medicamentos clássicos, sintéticos, caso das multinacionais Roche e Eli Lilly. As empresas estão interessadas nos chamados produtos biológicos, feitos a partir da nano e biotecnologia, que proporcionam maior eficácia e menores efeitos colaterais e em doenças como câncer. “A questão é que, para a fabricação desses medicamentos mais avançados, não são necessárias grandes instalações fabris. O importante é que a produção esteja estrategicamente localizada no mundo para atender aos mercados mais demandantes, que se encontram no hemisfério Norte”, explica a repórter Amália Safatle. Dados citados na matéria dão conta de que a Europa possui 20% do mercado farmacêutico, enquanto a América Latina toda fica só com 7% – e o Brasil detém 4%.