10 mulheres que, sendo artistas ou não, influenciaram a música

Por: Hannah Ramos 

As mulheres sempre tiveram um papel fundamental na criação das artes. Foram musas inspiradoras de inúmeros pintores, escultores e músicos, se eternizando como mídia mas, muitas vezes, sendo esquecidas. Muitas mulheres tiveram músicas feitas e dedicadas para elas, mas que não têm tal reconhecimento público. Por causa do pequeno espaço que elas têm como produtoras de arte, esquecemos de dar valor para as que inspiraram obras que permanecem relevantes até hoje, dando valor para as obras e ocultando as musas que, se não existissem, não seria possível com que essas fossem produzidas.

Mary Austin e Freddie Mercury

Uma das mulheres inspiradoras que, hoje em dia, está recebendo o reconhecimento merecido, é Mary Austin. Ex-namorada de Bryan May (guitarrista do Queen) e, depois de um breve período de tempo, também de Freddie Mercury, a garota trabalhou por um tempo numa boutique antes de começar seu relacionamento com o frontman da banda, o que mudou sua vida para sempre. Muitas vezes referida como “minha esposa” e “meu amor” por Mercury mesmo após o fim do relacionamento, Austin ficou e ficará marcada eternamente na história como a musa inspiradora da música Love Of My Life do Queen, uma homenagem que Freddie fez a ela e, incrivelmente, continuou fazendo durante todo o resto de sua vida. Mesmo depois do fim do relacionamento dos dois, Mary continuou uma grande amiga do vocalista e apoiou sua carreira musical como ninguém, o que ajudou a banda a continuar unida e ativa até a morte de Freddie Mercury. Os dois eram tão próximos que Mercury deixou metade de sua herança e sua mansão em Earl Count para Mary Austin.

Yoko Ono e John Lennon

Outra parceira que influenciou sucessos inabaláveis do século XX foi Yoko Ono. A esposa controversa de John Lennon, muitas vezes culpada (erroneamente) pelo fim da considerada maior banda de rock de todos os tempos, The Beatles, foi a inspiração de inúmeras canções do beatle, dentro da banda e na sua carreira solo. Enquanto beatle, Lennon dedicou para ela músicas como I Want You (She’s So Heavy), The Ballad Of John And Yoko e Happines Is A Warm Gun, e em sua carreira solo, ela foi a principal inspiração: não só trabalhou com John, mas foi pensando nela que compôs Oh Yoko!, I’m Losing You, Dear Yoko, Woman e não apenas a música Mind Games como todo o álbum homônimo. Mas engana-se quem pensa que ela foi a musa apenas de músicas românticas; o ex-beatle Paul McCartney compôs a música Too Many People, do álbum RAM, como crítica à ela e ao ex-colega. John Lennon também afirmou, em sua entrevista para a Playboy em 1980, que a música Get Back teria sido escrita por McCartney para ela, como se Paul insinuasse que ela deveria “voltar ao seu lugar”, pois Ono costumava ir para as sessões de estúdio com o companheiro.

Pattie Boyd, George Harrison e Eric Clapton

Agora, uma das maiores (senão a maior) musa inspiradora da história da música é inegavelmente Pattie Boyd. A ex-esposa de George Harrison é a mulher responsável pela existência de I Need You, Think For Yourself e Something, músicas que Harrison compôs quando ainda fazia parte dos Beatles. Porém, os dois se divorciaram e ela acabou se casando com o melhor amigo de George: Eric Clapton. Clapton não poupou esforços, pois escreveu para Pattie dois de seus maiores hits: Wonderful Tonight e Layla (até mesmo antes de se casar com ela, pois era apaixonado por Boyd desde que esta era casada com George). Mas não para por aí: de acordo com Ron Wood dos Rolling Stones, ele escreveu as canções Mystifies Me e Breath On Me sobre Pattie Boyd, pois “ele e Harrison dormiram com as mulheres um do outro nos anos 1970”, o que acabou inspirando-o.

 

Mas se acreditamos que apenas parceiras (ou ex-parceiras) são inspiradoras para a música, estamos enganados. Figuras históricas já serviram como musas principalmente na música brasileira, mas acabaram por ser esquecidas (ou reduzidas à personagens, como as mulheres que vimos anteriormente). Duas mulheres que merecem grande destaque aqui são Chica da Silva e Maria Bonita.

Chica da Silva inspirou a música Xica da Silva de Jorge Ben Jor. Ela não é muito conhecida, mas teve um papel importante na sociedade brasileira do século XVIII. Era filha de um português com uma escrava, o que a fez herdar a mesma condição de sua mãe, visto que seu pai possuía uma posição bastante privilegiada em Vila Rica. Primeiramente registrada como “Francisca parda” ou “Francisca mulata”, quando ainda era escrava e não tinha sobrenome e os escravos eram identificados pelo grupo étnico ou cor da pele, conseguiu sua alforria por conta própria e, com o nascimento de sua primeira filha, acabou por ser identificada como “Francisca da Silva de Oliveira”, o que denotou um pacto consensual com seu companheiro João Fernandes de Oliveira, que era um contratador de diamantes. O relacionamento dos dois distinguiu-se dos outros entre brancos e negros por ser público, duradouro  e intenso, além de Chica ter se envolvido com um dos homens mais ricos da cidade. Sua posição de poder chegou até a originar alguns mitos sobre sua persona, originados de romances, peças de teatro, poemas e cinema, visto que sua verdadeira história é desconhecida do grande público.

A atriz Zezé Motta interpretando Chica da Silva

Maria Bonita foi a musa da canção Acorda Maria Bonita, de Volta Seca, nome artístico de Antônio Alves de Sousa. Maria foi batizada como Maria Gomes de Oliveira e nasceu na Bahia. Casou-se aos 15 anos com José de Neném, que era comerciante e sapateiro, mas assim que conheceu Lampião, líder do movimento cangaceiro, em 1931, preferiu seguir sua vida ao lado dele. Foi a primeira mulher a entrar no cangaço e era muito respeitada dentro dele: era chamada de “Dona Maria” e até de “mulher do Capitão”. Ficou sete anos no cangaço e inspirou os outros cangaceiros a arrumarem esposas que, posteriormente, também passaram a fazer parte dele. As mulheres participavam de todas as atividades, inclusive dos combates, e Maria Bonita conquistou e deteve o mesmo destaque e respeito de Lampião no movimento.

É extremamente importante conhecer as mulheres por trás da música. Mais importante que isso, só conhecer as mulheres que lutaram pelo seu espaço na cena musical e a mudaram de tal ponto que sem elas, a cena não seria a mesma hoje. O papel feminino na música nunca pode ser restrito ao de inspirar: deve ser ampliado a ponto de fazer parte direta, como artista, compositora. Nós podemos até conhecer algumas celebridades mulheres, mas será que nós realmente sabemos qual o verdadeiro impacto que elas causaram na música?

                                 Patti Smith

Patti Smith é uma influência no rock que, sem ela, poderíamos não ter conhecido bandas que mudaram o mundo. Ela era uma mulher americana que, além de música, era poetisa, ativista e artista visual. Foi uma das mulheres pioneiras no movimento punk e se tornou extremamente influente na cena musical de Nova Iorque com seu álbum de 1975, Horses. Sua música mais famosa, Because The Night, foi co-composta por Bruce Springsteen e, em 2007, ela foi parar no Rock and Roll Hall Of Fame. Patti até fez uma turnê com o Bob Dylan. Ela é (e foi) influência para bandas como R.E.M., Garbage, Siouxsie and the Banshees, Bikini Kill, Nirvana, Smiths, Sonic Youth e Hole. Como se isso não fosse suficiente, no festival de Glastonbury em 2015, foi ela quem apresentou e cantou parabéns para o Dalai Lama. Por mais que tenham existido estrelas femininas do rock antes dela, com a ascensão de Patti Smith veio junto o punk, o grunge, o riot grrl, o rock alternativo e o indie. A visibilidade que ela conquistou para mulheres na música é gigante.

Outra estrela do rock que alcançou um espaço absurdo foi Joan Jett. Pode até chegar a ser injusto ela não dividir esse pódio com Cherie Currie, sua ex-colega de banda, visto que foi por causa da história incrível (e um pouco deturpada) que ambas tiveram no The Runaways que a lançou como uma artista solo de sucesso, mas Joan tem um mérito próprio que Cherie não conseguiu ter por causa de seus problemas com drogas e, consequentemente, seu afastamento e o fim da banda. O Runaways, que já era uma ovelha negra do hard rock dos anos 1970 por ser uma banda composta somente por mulheres, conseguiu ficar ainda mais fora da linha pelo sucesso avassalador que alcançaram nos míseros quatro anos na ativa. A música Cherry Bomb lançou a carreira da banda e a fez conquistar um lugar na música que antes era destinado apenas aos homens. Uma banda de hard rock com mulheres, letras fortes e sem medo do apelo sexual foi um choque na época: um choque necessário para que então as mulheres pudessem se encaixar e se sentirem representadas não só nesse estilo musical, mas também no glam rock e no heavy metal. Após o fim do Runaways, Jett seguiu carreira com sua banda Joan Jett & the Blackhearts que produziu grandes hits como I Love Rock ‘n Roll, Bad Reputation e I Hate Myself For Loving You, que fez com que Joan Jett ganhasse voz e espaço na música, o que a tornou um ícone feminista por alcançar uma visibilidade e empoderamento que pouquíssimas mulheres tinham conquistado antes. Assim, a conhecida “Rainha do Rock ‘n Roll” foi parar no Rock and Roll Hall Of Fame em 2015.

Agora, no soul, pode-se falar de uma mulher que nos deixou recentemente: Aretha Franklin. Não só descrita como uma das vozes mais únicas de todos os tempos, como também uma conhecida atriz e ativista dos direitos civis americanos. Sua carreira como cantora começou numa igreja em Detroit, e com 18 anos (em 1960!), começou a gravar na Columbia Records, onde alcançou um modesto sucesso. Seu verdadeiro sucesso comercial e crítico aconteceu depois de assinar com a Atlantic Records em 1966. Conseguiu se destacar na música com hits como Respect, Chain Of Fools, Think, (You Make Me Feel Like) A Natural Woman, I Never Loved A Man (The Way I Love You) e I Say A Little Prayer e no fim dos anos 1960 já era considerada a Rainha do Soul. Franklin teve 112 músicas nas paradas da Billboard, incluindo 77 no Hot 100, 17 no Top 10 Pop Singles, 100 na parada R&B, e 20 Number-one R&B Singles, o que a tornou a mulher que mais esteve nas paradas na história. Ganhou 18 Grammys, dos quais os oitos primeiros foram de “Melhor Performance Vocal Feminina de R&B” (de 1968 a 1975) e ela é a uma das artistas mais bem-sucedidas comercialmente, tendo vendido mais de 75 milhões de cópias. Como se não bastasse, entrou no Rock And Roll Hall Of Fame em 1987, sendo a primeira mulher a conseguir isso, e está presente em duas listas da Rolling Stones: Top 100 Artistas de Todos os Tempos e Top 100 Cantores de Todos os Tempos, sendo que nesta última, foi a número um em 2008. Não é à toa que artistas do mundo todo lamentaram sua morte em agosto deste ano; o seu feito foi inigualável, e ela permanecerá na história como uma mulher de legado incrível.

Claro que nós não podemos nos esquecer de uma rainha que ainda está entre nós: Madonna, a Rainha do Pop. Conhecida por quebrar as barreiras da composição no pop mainstream, ela mudou o conceito de show de pop para sempre, por ter transformado suas apresentações em verdadeiros espetáculos, com coreografias e figurinos incríveis e uma dinâmica inigualável, o que a fez ter não somente sucesso comercial como a levou a ser aclamada pela crítica. Vendeu mais de 300 milhões de cópias no mundo, a tornando a artista feminina mais bem-sucedidas comercialmente da história, estando até no Guinness World Records. De acordo com a Billboard, ela é a artista solo mais bem-sucedida na sua parada Hot 100 da história. Madonna também é a artista solo que mais arrecadou em turnê de todos os tempos, acumulando US$1.4 bilhão de ingressos de shows. Entrou no Rock And Roll Hall Of Fame no seu primeiro ano de eligibilidade, e ficou em primeiro lugar na lista da VH1 de 100 Maiores Mulheres da Música. Além disso, está presente nas seguintes listas da Rolling Stones: Top 100 Artistas de Todos os Tempos e Top 100 Compositores de Todos os Tempos. Madonna mudou o significado do termo pop star, elevando-o para uma escala global, e viralizou massivamente, se tornando uma febre que não se via desde a beatlemania dos anos 1960. Muitos dizem que Madonna, junto com Michael Jackson, criou os termos “Rei e Rainha do Pop”. Seu sucesso redefiniu os parâmetros de sucesso para artistas femininas, conquistando um espaço que, posteriormente, possibilitou a ascensão de Britney Spears, Christina Aguilera, Pink, Spice Girls e outras, que se inspiraram nela. Até mesmo artistas homens já declararam ter sido influenciados por Madonna, como Liam Gallagher do Oasis e Chester Bennington do Linkin Park. O uso de imagens sexuais beneficiou a carreira de Madonna e catalisou o discurso sobre sexualidade da mulher e feminismo, o que angariou raivas de setores mais conservadores: não era só a ideia da liberdade sexual feminina que incomodava, mas também o uso de imagens religiosas e outros comportamentos considerados “irreverentes”. As atitudes e opiniões de Madonna sobre sexo, nudez, estilo e sexualidade fizeram o público discutir sobre e causaram uma revolução entre as mulheres na música.

Nas terras tupiniquins, não ficamos muito atrás. Tivemos um ícone mundial, referenciado até hoje na cultura popular de um modo bem simples: uma cesta de frutas na cabeça. Carmen Miranda, portuguesa radicada no Brasil, teve uma carreira que transcendeu as terras brasileiras e foi parar nos Estados Unidos entre as décadas de 1930 e 1950. A Rolling Stone a considerou a 15ª maior voz da cultura brasileira, e foi apelidada de “A Pequena Notável”, “The Brazilian Bombshell” e “Embaixatriz do Samba”. Trabalhou no rádio, no teatro de revista, no cinema e na televisão. A gravação da marcha Ta-hí (Pra Você Gostar de Mim) a levou ao estrelato no Brasil e a tornou a primeira artista a assinar um contrato com uma emissora de rádio no país. Seu crescente sucesso na indústria fonográfica lhe garantiu um lugar nos primeiros filmes com som dos anos 1930, participando de cinco musicais carnavalescos lançados nesse período, e em 1939, o produtor da Broadway Lee Shubert a ofereceu um contrato de oito semanas para se apresentar em uma revista musical chamada The Streets Of Paris. No ano seguinte, fez sua estreia no cinema estadunidense e foi eleita a terceira personalidade mais popular nos EUA, o que a conseguiu uma apresentação com seu grupo Bando da Lua para o então presidente americano Franklin Roosevelt, na Casa Branca. Miranda chegou a ser a mulher mais bem paga dos Estados Unidos, segundo o Departamento do Tesouro Americano. Ela fez 14 filmes nos EUA nas décadas de 1940 e 1950, sendo 9 na 20th Century Fox. Suas apresentações popularizaram a musica brasileira no exterior, além de ter sido a primeira sul-americana a ser homenageada com uma estrela na Calçada da Fama. Em 20 anos de carreira, deixou sua voz num total de 313 canções. Tem um museu no Rio de Janeiro em sua homenagem. Até hoje, nenhum artista brasileiro teve tanta projeção internacional como ela.

Desse modo, vemos que a trajetória das mulheres na música de todo o mundo mudou com o tempo, oscilando de mera inspiração para grande influência. De qualquer modo, seja qual for seu papel na produção artística, é inegável que sem as mulheres, a música não seria o que é hoje. Essas dez mulheres alcançaram feitos inigualáveis e abriram visibilidade notável para a participação feminina passiva e ativamente na cena musical. A representatividade anda abrindo cada vez mais caminhos e as mulheres estão conseguindo ter uma voz cada vez maior nas artes, o que nos permite lutar mais e mais pelos nossos direitos de igualdade e de sermos ouvidas. Não podemos e não iremos nunca nos omitir. A luta pelo espaço está apenas começando!